Depois dos 40 (autorretrato)

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Deixo meus pincéis de lado. Limpo as mãos com o paninho de prato surrupiado da cozinha. Afasto-me dois passos. Tento reconhecer-me naquela mulher. Seus seios estavam diferentes de vinte anos atrás, e não são circulares como os da Maja Desnuda. Mas isso os fazia mais feios? Imagino a mulher retratada com próteses de silicone. Percebo que isso acabaria com sua beleza. E se não fica bem na tela, não serve para mim. Mas podia imaginar algumas modificações naquelas mamas, então penso numa plástica, sem prótese.  Simulo mentalmente o efeito da cirurgia na pintura. Também não me agrada. Convenço-me de que gosto daquele quadro do jeitinho  que eu o pintara. E se a mulher retratada se parecia comigo, eu estava satisfeita com meu corpo de quarenta e seis anos.

Maja Desnuda - Goya

Maja Desnuda - Goya

Mesmo assim, continuo a olhar com cuidado o autorretrato. Vejo que havia exagerado na cor vermelha na região genital. Rio de imaginar que havia representado uma mulher naqueles dias.  Mas logo penso, e por que não? Por que não seria de bom-gosto? Bom-tom? Boa estética? Não, eu sou rebelde, minha Maja Desnuda quase cinquentona continuaria menstruada. Então me dou conta do poder do inconsciente. Eu mesma ainda sangrava mensalmente. Mas até quando? E de repente, a menstruação, essa minha inimiga desde os treze anos, torna-se uma amiga querida da qual não quero me separar. Peço-lhe que continue me visitando  todo mês. Novamente rio de mim mesma. Toda amiga tem vontade própria, partirá quando quiser, quando for a hora.

Judith and the head of holofernes - 1901 - Gustav Klimt

Judith and the head of holofernes - 1901 - Gustav Klimt

Lira dos Cinquentanos - 1992 - Juares Machado

Lira dos Cinquentanos - 1992 - Juarez Machado

Aproximo-me da tela e, recolocando meus óculos, examino o rosto daquela mulher. Vejo um rosto jovem. Terei sido generosa demais comigo mesma? Terei aplicado um botóx de tinta acrílica na fronte quase lisa, em volta dos olhos, dos lábios? Vou ao espelho inventariar minhas rugas. Confirmo a minha generosidade. Estava longe de  ser um lifting, mas parecia mais nova na pintura que na realidade.  Não tomara consciência de todos os riscos que surgiram na minha face nos últimos cinco anos. Penso nas mulheres que exageram no uso do pancake, e ficam com aquela pele de massa corrida. Retorno ao quadro e penso se seria possível retratar-me com maior fidelidade. A técnica que utilizo, embora quase realista, não permite reproduzir os finos traços de rugas, pois as pinceladas são grossas demais para detalhes. Mas não quero trair minha cronologia. Percebo, afinal, que o problema não são as rugas, ou a falta delas, mas a expressão inconsistente. Com pequenas modificações, quase imperceptíveis, nos lábios e nos olhos, chego ao efeito que quero. Não são mais olhos e boca de uma menina, são olhos dignos, como os de Judith no quadro de Gustav Klimt, ou como os belíssimos olhos verdes da mulher que vi numa obra de Juarez Machado. Em ambas as pinturas, vê-se a idade das mulheres apenas pela expressão amadurecida. Orgulho-me ao conseguir um resultado semelhante.

Venus ao Espelho - 1615 - Peter Paul Rubens

Venus ao Espelho - 1615 - Peter Paul Rubens

Propped - 1992 - Jenny Saville

Propped - 1992 - Jenny Saville

Checo, por fim, a barriga e os quadris, e verifico que eles têm um certo volume. Lembro-me das pinturas renascentistas e barrocas, com mulheres em formas redondas, gordinhas mesmo. Sinto saudades de um tempo que não vivi, em que uma gordurinha não era pecado. A barriguinha  e os quadris da mulher no quadro estão presentes, mas sem exagero. Também gosto desse conjunto.  Me vem à mente a torturante imagem criada por Jenny Saville, uma mulher muito obesa, equilibrando-se num ridículo banquinho, praticamente empalada.  Fico feliz porque a mulher que pintei parece confortável.

Afasto-me mais uma vez do cavalete. Há só mais um detalhe a checar. A iluminação sobre a mulher. Ela está sob um sol alto, um sol de duas horas da tarde. Sim, é exatamente o que eu quero. Ainda faltam algumas horas para o crepúsculo, e aquela mulher ainda terá muito o que fazer antes que anoiteça.

Leia também Depois dos Trinta .

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5 Respostas to “Depois dos 40 (autorretrato)”

  1. calcinharomantica Says:

    Amei seu texto! Tão verdadeiro, intenso. Nem precisa de mais palavras. Meus parabéns!

  2. Dinossaurio Says:

    Comestível, vc não acabou de retocar sua obra-prima… vc é uma obra-prima! Se eu não fosse vegetariano….

  3. calcinha exocet Says:

    Uau! Fiquei arrepiada…. As pinturas são maravilhosas e o texto tão sensível. Adorei!

  4. calcinha bélica Says:

    Esse texto é uma pintura para todos os sentidos, amei!

  5. Tatieva, artiste Says:

    Merci de nous enchanter le regard avec Machado Juarez et Klimt, je suis fan ! Comment la féminité est sublimée…
    Tatieva, peintre des femmes

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