Big Brother: privacidade e internet

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big brother

(por calcinha de cristal)

Em 1948 George Orwell escreveu o livro 1984. Como se vê, os últimos dígitos referem-se ao ano em que ele foi escrito, de forma invertida. Naqueles anos pós-guerra o mundo vivia um otimismo, aparentemente a liberdade havia triunfado sobre a opressão nazista. Claro, a realidade era muito mais complexa. Iniciava-se a guerra fria, a caça às bruxas, leia-se aos comunistas.

George Orwell imaginou um mundo ao inverso do que ele aparentava. Um mundo vigiado, onde a individualidade cedia ante o domínio de um poder absolutista. Um mundo sem liberdade. Surgia a expressão “Big Brother”, o grande irmão, que tudo sabia, tudo via. A expressão foi vulgarizada pelos programas de televisão.

Talvez as pessoas não tenham se dado conta de que vivemos a era do Grande Irmão, fora da TV. Um exemplo recente foi o da professora que perdeu o emprego ao ter a imagem exposta na internet. Era um momento de lazer e, visto de longe, logo cairia no esquecimento pelas testemunhas. Mas dezenas de câmeras estavam apontadas para ela, ampliando os detalhes de seu rebolado, sob a música (?) “tudo enfiadinho”.

Não é só isso. Tudo pode ser facilmente monitorado, desde os e-mails até sua conta bancária, suas despesas de cartão. Nossa vida está exposta e pode cair na rede.

Alguém pode dizer que basta não fazer nada errado. Mas existem dois argumentos fortes contra esta forma de pensar. Primeiro, podem ser criadas mentiras, que divulgadas pela rede, tem um potencial infinitamente maior de se espalhar que as “penas ao vento que não podem ser recolhidas”, na conhecida metáfora. Além disso, quem julga o que é errado? Estamos sujeitos ao controle moral de quem está interessado apenas em fofocas e maledicências. Os olhos eletrônicos estão em toda parte. Faça algo fora do padrão e você será enquadrado. Ao contrário do livro de George Orwell, o grande irmão não é uma pessoa só. Ele está diluído em uma humanidade que quer controlar cada um dos indivíduos que a compõe. Como mostra o caso da professora, e muitos outros semelhantes, é a mulher que continua sendo a mais vigiada das criaturas.

Esse fenômeno, porém, tem um outro lado. Qualquer um que não se importe em ter a sua privacidade violada, pode tranformar-se em uma celebridade com seus cinco minutos de fama. E alimentar os olhares gulosos dos voyeristas de plantão. Nesta sociedade confusa, tornar-se “celebridade” pode ter um valor maior que proteger a intimidade. Esta é a lição ensinada por programas do tipo reality show.

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8 Respostas to “Big Brother: privacidade e internet”

  1. Dinossaurio Says:

    Cristal, permita-me complementar algumas ideias de seu post: parece-me que as grandes alterações sociológicas que se vêm assistido nos ultimos anos por esse mundo fora, qual epidemia, de um aumento do narcisismo sem par, é que são as culpadas.

    Os programas do tipo reality show não estão ensinando nada: apenas respondem a uma necessidade social de reconhecimento e auto-promoção por parte dos espectadores. Veja o outro exemplo das redes sociais na internet, onde o que interessa mesmo é ser ouvido.

    Onde está a origem do problema ? A meu ver na educação que temos dado a nossas crianças, sobretudo desde a década de 60. Focando mais na auto-confiança do que no esforço, empenho e solidariedade. Criança mimada vira adulto egoista. Focando mais na individualidade do que na liberdade. Criança pensa que tem todos os direitos e nenhuns deveres.

    Quanto a Orwell, como vc escreveu, a realidade era muito mais complexa: enquanto uns se entretinham a caçar bruxas e comunistas, os comunistas de Mao e Stalin eram eficientes em matar milhões de pessoas que não se conformavam em aceitar que uns eram mais iguais que outros. E foi contra este estado de coisas que George escreveu. Porque comunismo e nazismo são a mesma coisa abjecta.

    Fico perplexo também é com a sua afirmação de que “a mulher continua sendo a mais vigiada das criaturas”. Como criatura de Deus, do outro género, não posso deixar de discordar: que nisso estamos todos sendo vigiados e vigiando. Porque em Deus tem Eu.
    😉

    • calcinha de cristal Says:

      Isso não é um comentário, é uma dissertação!! a gente não pode nem ser irresponsável, e jogar uns argumentos por aí, sem compromisso😉
      Bom, vamos lá: Não falei dos “comunistas” porque nos países “comunistas” (não sei se já existiu algum) não se prometia mesmo liberdade, não havia contradição (embora isso não os legitimasse). A contradição está nos países capitalistas, que caçaram bruxas e continuam caçando, e para isso mantém o mundo vigiado.
      Concordo com alguma falha na educação das crianças. Mas acho que, quanto a isso, ainda não acertamos a mão. Precisamos achar um equilíbrio entre individualidade e coletividade. Entre o eu e o nós. Mas é claro que precisa, sim, haver mais solidariedade.
      Os programas de reality show são um resultado de uma necessidade, mas também amplificam, reproduzem e “legitimam” esta necessidade. O pensamento é: “Se está na TV, é bom e deve ser seguido”. É o aprendizado pelo exemplo. Um exemplo perverso e pervertido.
      Mas, quanto à conclusão, realmente divergimos muito. Talvez vc não perceba, por ser do outro gênero, mas nós mulheres somos infinitamente mais vigiadas que os homens. Não eram os homens que eram apedrejados na época de Cristo. Não são imagens de homens que acabam na internet. Não são homens que são ridicularizados e perdem seus empregos. As mulheres são muito mais expostas e seu comportamento é muito mais fiscalizado.

    • Dinossaurio Says:

      Ora essa…. bastaria ler Les Chemins de la Liberté de Sartre em 1945 para se ser levado a acreditar que o modelo proposto pelos Partidos Comunistas era o único que conduziria ao paraíso na terra… ah, prometiam liberdade, prometiam !! E no entanto quem mantinha a população muito bem vigiada era a Stasi na RDA.

      Países ‘capitalistas’ esses é que infelizmente nunca existiram (recordo que nunca houve nenhuma nação na face da terra a adoptar esse modelo económico – o que mais se aproxima é a de economias mistas, com um controlo estatal mais ou menos forte). De qualquer maneira não me parece que a organização económica (economia de mercado ou centralizada) de uma sociedade esteja relacionada com o caracter controlador da sociedade ou do estado, que tem mais a ver com a organizacão política (democracia ou ditadura).

      Qunto às conclusões acredito também, como vc, que as mulheres se ‘sintam’ mais expostas e fiscalizadas em termos sociais. Mas o que contesto é que nós os homens, por não sermos mulheres, sejamos menos controlados ou descriminados. Nós também nos ‘sentimos’ mais expostos e fiscalizados. E foi JC que, além de ser apedrejado, foi parar na cruz, né…😉

  2. calcinha de cristal Says:

    Conheço muita gente que diz que não tem ideologia para disfarçar que é de direita. Acho que nem essas pessoas teriam coragem de lamentar se não existisse um país totalmente capitalista (ou seja, em que tudo girasse em torno do lucro, e todos estivessem a serviço dele). Parabéns por assumir seu desejo de ver o mundo girando em torno do lucro. Pelo menos vc é sincero. Mas não sei se vc conhece a expressão “capitalismo selvagem”.
    As promessas de liberdade, nos países que se diziam comunistas, eram, claro, pura figura de retórica, já que se assumiam uma “ditadura do proletariado”. A ideia de liberdade vendida nos países do então chamado 1o. mundo era muito diferente daquela vendida no 2o. Mas temos um grande problema na nossa conversa: conceitos diferentes, e aí gastaríamos linhas e linhas para chegar num consenso apenas sobre estes conceitos.
    Mas nos desviamos do assunto principal: as mulheres serem ou não mais vigiadas.
    Cristo não foi crucificado por moralistas preocupados com o comportamento sexual dele. Foi crucificado (provavelmente) porque ameaçava um sistema de governo, ameaçava o poder. As mulheres eram apedrejadas apenas pelo que faziam, ou diziam que elas faziam, na cama. Então, não há a menor possibilidade de comparação. 😉

  3. Dinossaurio Says:

    É, eu gosto do colocar os pontos nos iii’s. Mas essa etiquetagem de direita como sendo ‘selvagem’ e da esquerda como sendo ‘boazinha’ não cola mais e me tira do sério, Cristal. Desculpa mas não podia passar incólume.😉

    Eu sou sobretudo um liberal: defendo a economia de mercado sem intervenção estatal (nenhuma !), a liberdade pessoal sem compromisso (daí apoiar causas fracturantes como a união civil gay, aborto, liberalização do uso de drogas, etc). Se insiste em me chamar de direita deve ser porque sou anti-comunista. Mas como sou anti-nazista vai ter que me chamar de esquerda também, né ?😉

    Mas a ver então: se afinal o seu post era sobre a repressão sexual feminina, foi rebuscado ter ido argumentar com Orwell. O que eu contraponho é que vcs mulheres saiam desse registro de vítima e vejam nosso lado também: olha por exemplo a revolução sexual que trouxe a pílula anti-conceptiva e a liberdade que ela trouxe às mulheres e que está ainda faltando aos homens… quem nos garante que o ‘grnade irmão’ era homem, heim ? Moralismo existe entre mulheres também, o auto-controle me parece ser o maior problema vosso
    😉

  4. calcinha de cristal Says:

    O que eu chamo de capitalismo selvagem é justamente o capitalismo sem intervenção estatal (nenhuma!). Foi este tipo de capitalismo que levou à atual crise, e que deve refluir. Mas este tipo de capitalismo, como já se disse, privatiza o lucro e socializa o prejuízo. A crise está sendo superada pelo capital disponibilizado pelo Estado, ou seja, pela sociedade. Então não posso embarcar nesta revisão extremada do liberalismo, ou do laisser-faire.
    Mas eu não disse em lugar nenhum que era de esquerda, muito menos que a esquerda é boazinha.
    O moralismo realmente não é privilégio de nenhum gênero.
    Falar que as mulheres são moralmente mais vigiadas (inclusive pelas próprias mulheres) não é se colocar em posição de vítima. É apenas mostrar o que eu acredito que seja verdade, empiricamente.
    Concordamos com uma coisa também, a opressão não atinge apenas o gênero feminino.😉

  5. Dinossaurio Says:

    Cristal, não estou de acordo com as suas conclusões sobre as causas da crise, mas penso que isso ficará para uma próxima oportunidade.😉

    No entanto, gostaria de insistir que nós homens também somos nesse momento “moralmente mais vigiados”: veja o exemplo dessa história de horror que é o caso do italiano em Fortaleza que foi preso por beijar a filha… inacreditável e inaceitável. Imagino que se fosse mulher nada disso se teria passado. Descriminação de género que vcs deviam denunciar aqui.

    Ainda em relação ao tema ética e moral gostaria de partilhar uma comunicação sobre o tema, dada por Barry Schwarz em Fevereiro p.p na conferencia da TED…..

    20 minutos, mas vale a pena ver:

    • calcinha de cristal Says:

      Não posso julgar o caso do turista italiano apenas com base nas notícias e nas versões conflitantes dele, de sua mulher e das testemunhas que denunciaram.
      Mas o caso lembra o citado na palestra do Barry Schwarz, sobre o pai que deu “limonada forte” para o filho. Parecem um chocante exagero.
      Seguir as regras ou fazer a coisa certa?
      Desculpe, mas a palestra recai em algumas obviedades. É óbvio que é preciso bom senso na hora de aplicar as regras. Mas podemos confiar no nosso bom senso? E se o pai realmente tinha o hábito de embebedar o filho? E se o turista realmente abusava da filha? Qual o limite do nosso bom senso? É realmente uma questão de confiança.
      Porque o bom senso não é suficiente para avaliar a realidade, ou a aparência de realidade.
      Assim, se a responsabilidade ou o incentivo não são suficientes para que 100% das pessoas façam a coisa certa, o que será suficiente?(no exemplo do lixo atômico só 50% aceitariam. Seria justo que estes recebessem o lixo, por sentirem-se responsáveis, enquanto os outros 50% ficariam longe do risco, premiados pela falta de coletivismo?)
      O dilema moral x regras x ética x virtude é milenar. Barry Schwarz é muito ingênuo se realmente acha que basta mudar a atitude das pessoas, e que isso é possível com a educação e com o exemplo. Deve ser sim suficiente para as milhares de pessoas que foram prejudicadas pelo golpe bilionário do Madoff, p. ex. Mas não são suficientes para os espertinhos que passaram o golpe adiante porque receberam bonificação.
      Acho que o único jeito de fazermos a coisa certa é se fôssemos como as abelhas ou as formigas, programadas para isso. Mas, é claro, assim não teria a menor graça, para não dizer que não teria o menor valor em termos de virtude. E dizem que descobriram umas formigas que ficam lá engordando, sem trabalhar, enquanto as outras se matam de cortar folhas.
      Ou seja, é bom Barry Schwarz lembrar as pessoas dessas coisas, que os filósofos discutem há 3 mil anos. Para a maioria da platéia soa como uma grande novidade. Mas, na verdade, é apenas um problema muito velho, para o qual a civilização humana ainda não encontrou solução adequada. E a solução resumidamente apresentada não resolve.

      No fundo, acho que grande parte da humanidade não tem a sabedoria dos faxineiros. E talvez nunca vá ter. Aliás, qual será a porcentagem dos faxineiros daquele hospital que agem com sabedoria?

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