Maria Bonita: Uma mulher brasileira

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mariabonita(Por calcinha bordada)

Minha mãe foi criada onde Lampião e Maria Bonita foram assassinados, no Município de Poço Redondo, Sergipe. Quando eles morreram, ela tinha 11 anos. Eu, quando também era criança, fui muitas vezes à pequena cidade de Poço Redondo, onde meu avô morava. Talvez por isso me sinta, de alguma forma, ligada à história deste famoso casal. Nesta cidadezinha não lembro de ter visto nenhuma referência à Lampião, embora eu tenha ouvido, na infância, minha mãe dizer que todos tinham medo dele. Sei que ele é bandido para alguns e herói para outros. Isto dependerá do ponto de vista. Mas sei também que ele entrou no cangaço para vingar a morte do pai, um homem pacífico, por um delegado de polícia. A revolta dele contra as autoridades tem um motivo muito forte para existir. Precisamos lembrar que, então, o nordeste era um território praticamente sem lei, ou melhor, em que a lei só valia para alguns, chamados coronéis. Esta herança perversa sobrevive até hoje. Não acredito que ele fosse um bandido comum, acho que suas razões eram políticas, embora ele tenha apelado para a luta armada.

As roupas características do grupo, inspiradas em heróis e guerreiros, como Napoleão Bonaparte, eram desenhadas e confeccionadas pelo próprio Lampião. Os chapéus, as botas, as cartucheiras, os ornamentos em ouro e prata, mostram sua habilidade como artesão. Aliás, Lampião era tão habilidoso que era ele quem fazia os partos das mulheres no seu grupo. Não é impossível, mas acho difícil imaginar que um homem com este comportamento cometesse assassinatos por pura crueldade. Para mim, ele respondia à violência com violência, estava em guerra contra as autoridades.

Mas eu me sinto especialmente ligada à história de Maria Bonita. Ela nasceu no dia 08 de março de 1911, coincidentemente o dia internacional da mulher. Já era casada quando conheceu o homem que a levaria para viver no sertão, na caatinga, em meio àquela paisagem agreste. Sentiu-se atraída por Virgulino Ferreira assim que o conheceu. E a mãe de Maria Bonita contou para Lampião o sentimento da filha. Após um ano de namoro, Lampião a chamou para a dura vida do cangaço. Ela abandonou, sem pensar, o marido que a maltratava. Foi uma pioneira. Após a sua entrada para o grupo, outras mulheres a seguiram:

“A partir daí, outras mulheres também entraram para o cangaço. Seria uma verdadeira revolução feminista, uma vez que se emanciparam e impuseram respeito. Muito embora não participassem dos combates, de forma direta, elas eram preciosas colaboradoras, tomando parte das brigadas e/ou empreitadas mais perigosas, cuidando dos feridos, cozinhando, lavando, e, principalmente, dando amor aos companheiros. Fosse representando um porto seguro, ou funcionando como um ponto de apoio importante, para se implorar algum tipo de clemência junto aos cangaceiros, as representantes do sexo feminino contribuíam para acalmar e humanizar os homens, limitando-lhes os excessos de desmandos. Muitas portavam armas de cano curto (do tipo Mauser) e, em caso de defesa pessoal, estavam sempre prontas para atirar. Excetuando-se Lampião e Maria Bonita, os casais mais famosos do cangaço foram: Corisco e Dadá; Galo e Inacinha; Moita Brava e Sebastiana; José Sereno e Cila; Labareda e Maria; José Baiano e Lídia; e Luís Pedro e Neném.”

“Cabe ressaltar que, apesar de receberem a proteção paternalista dos cangaceiros, a vida das mulheres era bastante difícil. Levar a termo as gestações no desconforto da caatinga, por exemplo, significava sofrimento; e, muitas vezes, logo após o parto, elas eram obrigadas a fazer longas caminhadas, fugindo das volantes. Caso não possuíssem uma resistência física incomum, não conseguiam sobreviver àquele cotidiano inóspito.”

Mas, pelo menos para mim, Maria Bonita foi especial. Uma mulher extremamente forte e determinada, jamais demonstrou arrependimento por ter seguido Virgulino, foi sua companheira em todos os momentos. Era tratada por Lampião e por todos os homens do grupo com muito respeito. Era uma mulher incomum. Foram assassinados juntos. Dizem que ela foi degolada viva. A maneira bárbara como foram tratados, decaptados, o corpo deixado para os urubus e as cabeças colocadas em exposição em praça pública, mostra os tempos sem lei então vividos. Se eles foram bárbaros, o Estado não era nada diferente. As cabeças de Lampião e Maria Bonita foram estudadas para ver se encontravam alguma coisa que diferenciasse “bandidos” das pessoas comuns. Nada se encontrou. Depois destes “estudos”, as cabeças ficaram ainda trinta anos expostas em um museu na Bahia, apesar da luta das famílias para que eles tivessem um enterro digno, o que só aconteceu em 1969.

Lampião e Maria Bonita deixaram uma filha, Expedita, que teve filhos e netos. Seus pais foram mortos quando ela tinha cinco anos, mas ela diz que ainda guarda recordações deles. Reclama da discriminação que sua família sofre e diz que não há respeito pela história deles. Afirma também que não há respeito pela imagem do casal, ou pelos direitos de uso dessa imagem. Muitos filmes foram feitos e livros foram escritos sem que a família fosse consultada. Maria Bonita é um nome tão forte que virou marca de roupa. Mas a família não recebe nada pelo uso do nome. A confecção não pode alegar que o nome não tem nenhuma relação com a Maria Bonita histórica. A coleção deste ano tem inspiração regional, com o uso de linho pintado à mão e tecidos de algodão, além de sandálias de couro.

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2 Respostas to “Maria Bonita: Uma mulher brasileira”

  1. luci Says:

    os herois viram roupa. na paraiba tem uma marca de roupa que se chama virgulino. e onde se olha ha alguem com a estampa de che na roupa. normal…

    ah, mas eu adoro essas historias do cangaço, amo! uma vez, fui no dragão do mar, em fortaleza, e vi uma exposição muito massa de lampião e cia. fotos, videos, objetos pessoais… achei lindo.

    me contaram uma vez das taticas que lampiao usava. coisas que eu achei muito engenhosas: eles calçavam as sandalias pra tras pra confundir a policia que tentava seguir as suas pegadas; colocavam cordões com sinos pendurados no perimetro em que eles acapavam (de forma que, quando a policia tocasse nas cordas, os sinos soavam); e cada pessoa nova que entrava no grupo costumava receber o nome de algum cangaceiro morto, dessa forma o nome era meio que perpetuado e dava a impressao que o grupo era invencivel (deu pra entender? hehe), muito bom!

    • calcinha exocet Says:

      Luci,
      Adorei estas informações que você acrescentou. A cultura nordestina é muito rica e Lampião e Maria Bonita, e o cangaço, fazem parte desta. A gente tem mesmo que dar valor.
      abraços

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