Um monstro sagrado do teatro brasileiro

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Dulcina de Moraes

(por calcinha exocet)

Nos anos 90, fiz graduação de educação artística na Fundação Brasileira de Teatro – FBT, cuja fundadora foi Dulcina de Moraes. Mesmo não sendo aluna de teatro tive a oportunidade de vê-la ensinando seus atores a interpretar e fiquei encantada com a sua técnica e profissionalismo. Naquele momento, tive vontade de ser atriz. Entrei escondida no teatro pois ela detestava ser incomodada e passei momentos emocionantes nessa condição.

A atriz foi uma mulher enigmática, extremamente inteligente. Parecia-me estar sempre interpretando uma personagem mesmo fora de seu campo de atuação. Foi uma líder. Amigos, como o dançarino Fernando de Azevedo, saíram do Rio de Janeiro e juntaram-se a ela na aventura de realizar seu sonho: transformar Brasília na capital das artes cênicas. Infelizmente, isso não aconteceu. Brasília, desde seu nascimento, era mais uma cidade política do que artística. As artes cênicas continuaram mesmo nos grandes centros urbanos como Rio de Janeiro e São Paulo.

Foi uma das maiores atrizes do teatro brasileiro, nasceu em berço artístico, sendo seus pais os atores Átila e Conchita de Moraes. A atriz estreou nos palcos na década de 20, e nos anos seguintes tornou-se um dos maiores nomes do nosso teatro, cuja companhia, Dulcina-Odilon, com seu marido e ator Odilon Azevedo, assinou grandes montagens. Protagonizou a peça Amor (1933), do comediógrafo Oduvaldo Viana. O sucesso da atriz atingiu as camadas mais altas da sociedade e Dulcina fez moda: os vestidos que usava em cena serviam como modelo para o público feminino (tive a oportunidade de conhecer seus vestidos quando houve uma exposição em seu teatro). Ganhou medalha do mérito da Associação Brasileira de Críticos Teatrais, ABCT, como melhor atriz do ano de 1939 pelo conjunto de trabalhos.

Ganhou novamente o Prêmio ABCT, em 1943, mas naquele momento como melhor direção por Mulheres, de Claire Boothe.

Em 1952, Dulcina já era a primeira atriz do teatro brasileiro. Voltou a ser criticada pela interpretação desmedida em A Doce Inimiga, de André-Paul Antoine, em 1953, ano em que ganhou o Prêmio Municipal de Teatro de melhor direção por O Imperador Galante, de Raimundo Magalhães Júnior.

No final dos anos 50, convencida da importância de revestir a profissão de ator de uma preparação técnica,  cria a Fundação Brasileira de Teatro, FBT, onde realiza cursos e espetáculos. Transferiu sua fundação para a capital federal em 1972.

A atriz só voltou ao palco carioca a convite e sob direção de Bibi Ferreira, em 1981, encenando a peça especialmente  escrita para ela: O melhor dos pecados, de Sérgio Viotti. Faleceu em Brasília, em 1996, cidade onde se radicou e se dedicou à FBT, sem as láureas que merecia pela sua importância nas artes cênicas brasileiras.

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