O valor dos pequenos

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(por calcinha exocet)

Hoje, felizmente, nossas crianças brasileiras têm um estatuto que lhes dá dignidade e direitos.  O Estatuto da criança e do adolescente (ECA) proíbe o trabalho infantil, garante o acesso à escola, as protegem da violência, dá-lhes direitos etc.crianças

Ao ler um post no Cogitamundo e ver a imagem de uma criança sendo pisada por um adulto sobre cacos de vidros, fiquei tocada. Isso me fez lembrar de um livro:  História das Crianças no Brasil, organizado por Mary Del Priore, Editora Contexto, São Paulo, 2004.

O livro conta a história das crianças que foram trazidas para cá na época do descobrimento.  Há passagens do texto que narram que as crianças judias eram arrancadas à força de seus pais pelos navegadores portugueses. Esse procedimento foi adotado pela Coroa portuguesa, em 1486,  com a intenção de obter mão-de-obra e de manter sob controle o crescimento da população judaica em Portugal.  Já as crianças pobres eram alistadas entre a tripulação dos navios, como grumetes, pelos seus pais, como forma de aumentar a renda familiar. Os pais tanto podiam, dessa forma, receber os soldos de seus filhos, mesmo que estes viessem a perecer em alto mar, quanto teriam menos uma boca para alimentar. Era, de alguma forma, um bom negócio na visão deles.

Durante os naufrágios, as crianças que embarcavam, seja como passageiras, seja como mãos-de-obra, vivenciavam um drama. Quando os navios partidos de Lisboa enfrentavam adversidades do tempo, ataques de piratas, imperícia dos pilotos, excesso de carga, o afundamento era inevitável. Na iminência de um naufrágio, o desespero fazia com que até mesmo pais aparentemente zelosos acabassem esquecendo seus filhos no navio, condenando-os ao sepultamento no mar.  As crianças dificilmente tinham prioridade de embarque no caso de naufrágio. Optava-se quase sempre por fazer subir no batel apenas os membros da nobreza, oficiais das embarcações e tudo e todos que pudessem ser úteis à sobrevivência em terra, deixando as crianças à própria sorte.

E, mesmo que os navios não naufragassem, as condições em que viajavam eram péssimas. A alimentação era racionada, a higiene, precária. Surgiam as doenças comuns agravadas pela inanição e insalubridade. Doenças hoje típicas da infância, como sarampo e caxumba, eram frequentes a bordo das naus do século XVI ao XVIII. As crianças órfãs do Rei, as judias e as pobres sofriam todo tipo de abuso. Estupros coletivos eram praticados contra elas pelos marinheiros ou soldados, e o trabalho infantil era explorado igual ao trabalho de um adulto. Não posso afirmar que isso não exista mais em nosso mundo, mesmo porque seria muita ingenuidade. Todos os dias a mídia entra em nossas casas por meio de jornais, rádio, tv e internet, escancarando a capacidade de perversidade do ser humano.criancas_mundo

Nossas crianças, mesmo com leis que as protegem, não estão salvas dos maus tratos dos adultos, sejam eles os próprios pais ou desconhecidos. Não sei se tratar as crianças como seres insignificantes é cultural ou próprio do ser humano, mas nós, que as amamos, temos que lutar para que tenham proteção, direitos e dignidade. Entre a Lei escrita e a efetivação dos direitos das crianças há um longo caminho, mas que precisa ser percorrido para garantirmos um futuro saudável para os pequenos.

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2 Respostas to “O valor dos pequenos”

  1. MARINA Says:

    Olá!
    Parabéns pela preocupação com as crianças!
    um abraço

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