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Anticristo

abril 18, 2010

(por calcinha de cristal)

Confesso minha má vontade com o filme desde o início. Achei a abertura pretenciosa e maçante. Assisti cada vez mais revoltada. O explícito chega ao cúmulo de uma automutilação genital, um clitóris cortado com uma tesoura enferrujada. Não é uma cena presumida. É um baita close no bichinho sendo arrancado. Tá, não queria estragar a surpresa, mas é melhor você saber logo para não ter pesadelo depois. O filme, na superfície, trata de uma historiadora que abandona a sua tese sobre a perseguição às bruxas, quando se convence que a maldade das mulheres é igual à dos homens e igual à da natureza. Pra mim, essa é parte que, passado o choque, ainda continua sendo processada. Porque também acho que a natureza pode ser má, ou melhor, ela não é intrinsecamente má, é amoral. Em outras palavras, a natureza tem o objetivo de manter a vida e a transmissão do material genético. Na realização destes propósitos, vale tudo. Tudo mesmo. Não há qualquer limite ético. Mas não é, portanto, uma maldade pela maldade. Ou é? A gente tenta buscar um sentido, mas talvez a natureza não tenha nenhum sentido. Ela apenas é o que é. O filme, acho, também não tem um sentido pré-definido.  Talvez ajude saber que o autor estava tentando superar uma depressão, e o filme fez parte da terapia. Disse ele em entrevista:

“O trabalho no roteiro não seguiu o meu modus operandi habitual. Cenas foram acrescentadas sem razão. Imagens foram compostas sem lógica ou função dramática. No geral, elas vieram de sonhos que eu tinha no período, ou sonhos que eu tive anteriormente.” (fonte)

Isso me lembra a obra de Buñuel, o cineasta espanhol surrealista.  A comparação com Buñuel é possível inclusive pelo close da mutilação. Buñuel causou polêmica com a cena de um olho de cavalo sendo cortado com uma navalha, no filme “o Cão Andaluz” (veja a cena aqui). Mas o cavalo ocupa a cena para não vermos, e apenas imaginarmos, a verdadeira vítima, uma mulher de olhos arregalados. Lars Von Trier foi além com a explícita mutilação genital.

O que me fez trazer este polêmico filme para o Calcinhas é que não sei se ele é um filme contra as mulheres ou que usa a violência contra as mulheres para causar polêmica e, portanto, se promover. Existe uma interpretação possível, a partir de alguns diálogos e algumas cenas, que o ato de queimar bruxas poderia ser justificável (se não quiser saber o final do filme, pare aqui). O próprio personagem, depois de ser torturado pela mulher, acaba levando-a para uma fogueira. E com isso se liberta do sofrimento. Mas depois dá de cara com centenas de outras mulheres na floresta. De cara não é correto, pois elas não tem rosto. Não consigo saber se o filme agride as mulheres tanto como as cenas. Mas a Lola, do Escreva Lola Escreva, dá uma dica. Ela diz que não há dúvida que um tema recorrente entre tantos desses filmes “polêmicos” é o mau trato a que as mulheres são submetidas. “Pensa só: se tantos filmes usassem uma outra minoria (por exemplo, negros, gays, judeus) para ser estuprada, mutilada, torturada, espancada, encarceirada e abusada, a gente não diria “Putz… Acho que esses filmes são racistas / homofóbicos / anti-semitas”? Mas como o abuso é contra mulheres, e vivemos numa sociedade em que isso é tolerado e, em alguns casos, até incentivado, passa como ‘controvérsia’, e viva a arte.” É preciso acrescentar que o personagem masculino sofre um bocado e injustificadamente antes de reagir. E a violência simbólica da mutilação é auto-realizada. Já a paulada no saco é praticada pela mulher. Neste sentido, Buñuel é mais violento contra as mulheres, porque o mutilador é um homem. Ou podemos entender o filme de Buñuel como uma metáfora, contra homens que não querem que as mulheres vejam a verdade. Ou seja, a interpretação é ao gosto do freguês…

Mas não tem como deixar de rotular o filme como apelativo. O próprio título, que tem pouca relação com o conteúdo, denuncia uma tentativa de chamar a atenção.