Anticristo

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(por calcinha de cristal)

Confesso minha má vontade com o filme desde o início. Achei a abertura pretenciosa e maçante. Assisti cada vez mais revoltada. O explícito chega ao cúmulo de uma automutilação genital, um clitóris cortado com uma tesoura enferrujada. Não é uma cena presumida. É um baita close no bichinho sendo arrancado. Tá, não queria estragar a surpresa, mas é melhor você saber logo para não ter pesadelo depois. O filme, na superfície, trata de uma historiadora que abandona a sua tese sobre a perseguição às bruxas, quando se convence que a maldade das mulheres é igual à dos homens e igual à da natureza. Pra mim, essa é parte que, passado o choque, ainda continua sendo processada. Porque também acho que a natureza pode ser má, ou melhor, ela não é intrinsecamente má, é amoral. Em outras palavras, a natureza tem o objetivo de manter a vida e a transmissão do material genético. Na realização destes propósitos, vale tudo. Tudo mesmo. Não há qualquer limite ético. Mas não é, portanto, uma maldade pela maldade. Ou é? A gente tenta buscar um sentido, mas talvez a natureza não tenha nenhum sentido. Ela apenas é o que é. O filme, acho, também não tem um sentido pré-definido.  Talvez ajude saber que o autor estava tentando superar uma depressão, e o filme fez parte da terapia. Disse ele em entrevista:

“O trabalho no roteiro não seguiu o meu modus operandi habitual. Cenas foram acrescentadas sem razão. Imagens foram compostas sem lógica ou função dramática. No geral, elas vieram de sonhos que eu tinha no período, ou sonhos que eu tive anteriormente.” (fonte)

Isso me lembra a obra de Buñuel, o cineasta espanhol surrealista.  A comparação com Buñuel é possível inclusive pelo close da mutilação. Buñuel causou polêmica com a cena de um olho de cavalo sendo cortado com uma navalha, no filme “o Cão Andaluz” (veja a cena aqui). Mas o cavalo ocupa a cena para não vermos, e apenas imaginarmos, a verdadeira vítima, uma mulher de olhos arregalados. Lars Von Trier foi além com a explícita mutilação genital.

O que me fez trazer este polêmico filme para o Calcinhas é que não sei se ele é um filme contra as mulheres ou que usa a violência contra as mulheres para causar polêmica e, portanto, se promover. Existe uma interpretação possível, a partir de alguns diálogos e algumas cenas, que o ato de queimar bruxas poderia ser justificável (se não quiser saber o final do filme, pare aqui). O próprio personagem, depois de ser torturado pela mulher, acaba levando-a para uma fogueira. E com isso se liberta do sofrimento. Mas depois dá de cara com centenas de outras mulheres na floresta. De cara não é correto, pois elas não tem rosto. Não consigo saber se o filme agride as mulheres tanto como as cenas. Mas a Lola, do Escreva Lola Escreva, dá uma dica. Ela diz que não há dúvida que um tema recorrente entre tantos desses filmes “polêmicos” é o mau trato a que as mulheres são submetidas. “Pensa só: se tantos filmes usassem uma outra minoria (por exemplo, negros, gays, judeus) para ser estuprada, mutilada, torturada, espancada, encarceirada e abusada, a gente não diria “Putz… Acho que esses filmes são racistas / homofóbicos / anti-semitas”? Mas como o abuso é contra mulheres, e vivemos numa sociedade em que isso é tolerado e, em alguns casos, até incentivado, passa como ‘controvérsia’, e viva a arte.” É preciso acrescentar que o personagem masculino sofre um bocado e injustificadamente antes de reagir. E a violência simbólica da mutilação é auto-realizada. Já a paulada no saco é praticada pela mulher. Neste sentido, Buñuel é mais violento contra as mulheres, porque o mutilador é um homem. Ou podemos entender o filme de Buñuel como uma metáfora, contra homens que não querem que as mulheres vejam a verdade. Ou seja, a interpretação é ao gosto do freguês…

Mas não tem como deixar de rotular o filme como apelativo. O próprio título, que tem pouca relação com o conteúdo, denuncia uma tentativa de chamar a atenção.

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7 Respostas to “Anticristo”

  1. luci Says:

    opa! comprei esse video (eh, piratex) no meu ultimo dia de brasil! nao li o post porque tenho medo de ler o que nao devo, mas quando eu o vir, volto aqui pras compartilhar minhas impressoes e saber a de vocês!😉

  2. calcinha de cristal Says:

    Oi Luci,
    realmente o post revela detalhes da história. Estamos aguardando suas impressões. beijos!

  3. calcinha exocet Says:

    Olá, Cristal! O filme realmente é muito denso, com cenas fortes de violência. Tenho uma leitura diferente. O trauma do luto leva o casal a buscar a natureza para enfrentar os seus medos. O marido, que é terapeuta, também está tratando a si mesmo sem ter consciência de sua dor. Ao interferir no tratamento da mulher, demonstra um distanciamento do ocorrido, uma espécie de fuga. E ao estar na Natureza tem contato com a própria dor. Os animais que vê na floresta simbolizam sua perda (o veado parindo o filhote pela metade, a raposa com os órgãos expostos).

    No meu curso de introdução ao direito, o professor quis levar esse filme para a sala de aula, mas havia uma menor de idade e não rolou. Penso que a procura do casal pela Natureza é a volta ao estado de natureza, onde o Estado não tem o poder coercitivo. É realmente o que ocorre no filme. A culpa e a dor leva a mulher a acreditar que é má e que a Natureza também é.

    O filme é uma colcha de retalhos(psicologia, filosofia, direito, sociologia), onde podemos pensar a respeito de nós mesmos. De como somos imprevisíveis diante de algumas situações. O cineasta mesmo não tendo a intenção presenteou o espectador com uma obra que diz muito do ser humano.

    E o título do filme (anti significa a negação de Cristo) talvez esteja se referindo à boa vontade e ao amor do marido que chega ao limite depois que é torturado fisicamente pela esposa. Seu sublime sentimento torna-se o oposto. Cristo pregava a submissão ao inimigo: quando alguém bater-lhe na face, ofereça a outra (mais ou menos isso). Para mim, há um sentido para o filme se chamar AntiCristo. O que você acha?

  4. calcinha de cristal Says:

    Oi Exocet,
    desculpa demorar para responder. Além de ocupada, acho que eu estava tentando digerir o filme. É, porque algumas imagens teimavam em ficar na minha cabeça. Fiquei meio traumatizada mesmo. Essas cenas desviaram minha atenção, mas gostei muito da sua análise, muito mais profunda que a minha. Subtraindo as cenas explícitas de violência sexual, que achei de mau gosto, até que o filme tem coisas interessantes, como vc mostrou.
    Quanto ao título do filme, tenho medo de ser possível outra interpretação. Anticristo seriam as mulheres, bruxas, que realizavam rituais pagãos. Ou indo ainda mais longe, seria a própria Lilith, a primeira mulher de adão, na tradição judaica, que foi traduzida na nossa cultura pela serpente, uma mulher rebelde que tinha a vagina dentada com a qual cortava pênis desavisados. Uma castradora, na versão depreciativa. Uma libertária, a primeira mulher a se revoltar contra a submissão aos homens, na versão de que gosto.
    Interessante que, pelo que me lembro, os personagens não tinham nomes.
    Anticristo é o nome de um livro do Nietzsche.
    Mas acho que podemos também imaginar que o filme é autobiográfico e a mãe cruel é a mãe do diretor/roterista. Lembremos que ele estava fazendo terapia na época e, tradicionalmente, “a culpa é da mãe.” Ele deve achar que sua mãe reprimia as tendências naturais dele, como a mãe do filme que vestia os sapatos do filho em pés trocados. Ou seja, ele deve considerar a mãe uma castradora.
    Mas tudo isso reforça meu sentimento de que talvez o filme seja contra as mulheres. É isso que tem me incomodado.
    o bom de filmes surreais é que rendem muita discussão!
    beijos

    • calcinhasnarede Says:

      Cristal, vamos falar um pouco de política? O que acha? Esse ano é de eleição, né? Sei que o assunto é polêmico mas não podemos deixar de expressar nossa opinião. Vou falar com Comestível, anda sumida… A oncinha, então, nem se fala!

  5. Anderson Santiago Says:

    O olho cortado em Um cão Andaluz não era de um cavalo, mas sim de um Jumento morto.

  6. Eduardo D Says:

    filme lixo super lixo.certo certo, é só um filme porno gore não fica procurando chifre em cabeça de cavalo, e parem de culpar os homens com teorias illuminatis ridiculas, olha tem uma mensagem na merda que eu escrevi referencia ao laranja mecanica… blabllablababoseira…

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