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Racismo, mulheres e dignidade

fevereiro 19, 2012

(por Calcinha Exocet)

The Help é uma história muito delicada de domésticas negras no Mississipi, EUA, na década de 1960. O filme emocionou-me e  fez-me rir também. Eis uma questão que me intriga muito: por que algumas pessoas acham-se melhores que as outras? Por que a cor da pele faria alguém ser menos humana, menos digna de direitos? A história é de uma moça branca, Skeeter – interpretada por Emma Stone – que acabara de sair da faculdade e retornara à sua cidade, Jackson. Seu sonho é ser escritora e como jornalista decide escrever a respeito do ponto de vista das domésticas negras de sua cidade. Assim expõe o racismo das famílias brancas em relação às empregadas negras.

A primeira a colaborar, mesmo correndo o risco de ser presa e demitida, é a personagem Aibileen Clark, interpretada por Viola Davis – excelente interpretação. A personagem, de meia-idade, passou a vida cuidando de crianças brancas e recentemente havia perdido seu filho em um acidente de trabalho. A morte de seu filho, segundo ela, tirou sua vontade de viver. Mesmo assim ela é amável com a criança que cuida e reforça a todo o momento a autoestima desta, dizendo-lhe: você é gentil, inteligente e importante.

O que percebemos é que todas, mesmo sendo humilhadas constantemente, procuram ter elevadas a autoestima e repassam às crianças brancas. É esse modo de educar que transforma a personagem Skeeter, fazendo-a ser diferente das outras moças de sua cidade. Skeeter acredita em si e com a ideia de escrever um livro sob a perspectiva de empregadas domésticas negras consegue um bom emprego em um Jornal de Nova Iorque. É a única que consegue sair da vida medíocre de Jackson.

Minny é a segunda doméstica que decide compartilhar a história de sua vida nas casas de famílias brancas. Outra personagem show de bola. Ela é vítima do racismo e da violência doméstica. Minny tenta trazer mais histórias de outras domésticas para compor o livro, mas o medo de elas serem presas é tão grande que somente Minny e Aibileen arriscam.

A editora do jornal que se habilitou a lançar o livro exige da recém-formada Skeeter a condição de publicá-lo com a colaboração de mais domésticas. As domésticas resistem e  somente quando ocorre o assassinato de Medgar Evers, em Jackson, e uma doméstica negra é brutalmente presa, é que mais domésticas decidem participar com suas histórias no livro.

O filme é maravilhoso! O livro deve ser melhor ainda.

O País das Neves

fevereiro 1, 2012

Hoje assistindo ao Bom Dia Brasil, soube de uma nevasca no Japão que matou umas 50 pessoas. Coincidentemente terminei a leitura do livro O País Das Neves, de Yasunari Kawabata, que trata da história de uma gueixa, Komako, que realmente existiu. Na ficção, Komako vive numa vila termal localizada nas montanhas. Muitas vezes encontramos o relato, entre os personagens principais, sobre  as nevascas e a neve que chega a 3 m de altura, tal qual a notícia afirmou pela manhã, no Bom Dia Brasil.

Parece que Kawabata escreveu esta obra na década de 1960. É impressionante a descrição da obra e o relato de hoje pelo jornal serem iguais! É como se desde 1960 nada houvesse mudado. Parece-me que as vilas do País das Neves estão paradas no tempo. As mesmas dificuldades como a desobstrução dos trilhos, o trabalho dos bombeiros e do povoado para abrir passagem na neve de 2,5m ou 3m. Vejamos um trecho da ficção:

“Shimamura continuava aquecido pelo calor do trem e ainda não sentia o frio que fazia ali fora, mas por nunca haver experimentado o inverno do País das Neves, a primeira coisa que lhe chamou a atenção foi o traje das pessoas daquele lugar.

– É tão frio assim para se vestirem desse jeito?

– É, já estamos preparados para o inverno. É muito fria a noite, após uma nevasca, que antecede um dia de tempo bom. Esta noite já deve estar abaixo de zero…

– Isso aqui é abaixo de zero? – Olhando as graciosas estalactites de gelo dos beiras do telhado, Shimamura entrou no carro com o encarregado da hospedaria. A cor da neve deixava ainda mais profundos os telhados já baixos das casas, como se a vila tivesse mergulhado silenciosamente na neve.

– Qualquer coisa que se toca é muito gelada.

– No ano passado, chegou a vinte graus abaixo de zero.

– E a neve?

– Normalmente fica entre dois metros e dois e meio, mas quando neva bastante passa de três metros e meio.”

Kawabata é um especialista ao descrever personagens reais, mesmo a gente sabendo que a maioria deles nunca existiu. São personagens complexos e misteriosos, paradoxais. Komako, sendo uma gueixa que existiu na vida real, é extremamente complexa. Algumas vezes me peguei irritada com ela, por causa de seus modos inconstantes.

A descrição da paisagem e da mulher é profundamente poética. Cada vez que leio uma de suas obras me encanto com seu estilo. Um estilo bem diferente do que estou acostumada. Ler é realmente uma descoberta.