Archive for the ‘contos’ Category

Virgínia

outubro 12, 2009

femme fatale b(por calcinha exocet)

Virgínia era uma mulher extremamente sexy, usava vestidos justos para definir sua silhueta e ressaltar seus seios. Quando passava de uma sala à outra não havia quem não olhasse para ela. As mulheres do escritório estavam sempre observando o seu modo de se vestir. Tudo nela era envolvente. Todas queriam saber qual perfume, qual hidratante usava. Pediam dicas de moda, maquiagem e acessórios. Virgínia era O Modelo de mulher bonita, inteligente e sexy.

Já os homens do escritório sonhavam com ela, imaginavam cenas tórridas de sexo ali mesmo no escritório. Eles a chamavam de Deusa: Como está minha Deusa hoje? O que minha Deusa quer?

O que mais intrigava os colegas de trabalho era ver Virgínia sempre sozinha. Não entendiam como uma mulher tão linda poderia estar sem namorado. Ela, nos raros momentos que saiu com o pessoal de trabalho, não levara acompanhante e quando uma colega mais entrona perguntava se estava com alguém interessante, respondia:

– Estou muito bem!

Ela, na maioria das vezes, saía do trabalho e ia direto para seu pequeno apartamento. Ao chegar, acariciava o gato Sarkozi e tomava um banho demorado. Escolhia um livro para ler e se jogava sobre a poltrona, nua. Ali ficava algumas horas lendo e quando sentia fome ia à cozinha criar um prato rápido. Alimentava Sarkozi e depois ia dormir. Nos fins de semana, ela gostava de ir ao parque caminhar e tomar sol. Em seu trajeto, muitos homens jovens e musculosos torciam o pescoço para vê-la passar. Alguns mais ousados puxavam assunto, mas ela não dava muito papo.

Virgínia era um mistério. Todos queriam saber da sua vida, os vizinhos, os comerciantes locais, os porteiros, os colegas de trabalho. No escritório, os homens fizeram uma aposta em dinheiro, lançando o seguinte desafio: qual deles conseguiria dobrar essa mulher.

Um deles teve a ideia de enviar um buquê de flores anônimo, achando que assim poderia despertar alguma curiosidade nela; outro quis ser romântico, convidando-a para jantar; outro, ainda, investiu diretamente, perguntando se gostaria de ir ao motel. E, para surpresa de todos, ela escolheu o que foi direto.

Quando chegaram ao motel, Virgínia disse que tinha uma surpresinha para o colega. Ele estava tão ansioso por aquele momento que disse:

– Minha Deusa, não precisa de surpresa nenhuma. Só de estar aqui com você… não poderia ser surpresa melhor! Na verdade, eu nem acredito!

E foi investindo sobre ela. Ela, espertamente, se esquivou e disse:

– Calma garanhão! Vamos tomar um espumante antes. Assim a minha surpresa tem tempo para chegar.

Ele conseguiu se controlar e tomou o espumante sem dizer uma palavra. Por sua cabeça passava cenas quentes e loucas com aquela mulher.

De repente, bateram à porta. Virgínia já em trajes pequenos foi abrí-la. E… Entraram um homem forte e negro acompanhado de uma mulher nissei.

Seu colega de trabalho ficou meio perdido com a presença daquelas pessoas e perguntou à Virgínia o que significava aquilo. Ela disse que o casal estava lá para dar prazer aos dois. E essa era a surpresa.

Ele resolveu aceitar, afinal não negaria prazer à sua Deusa. Bebeu mais e mais, conversou com o casal, riu, contou piadas… Ficou alegrinho. Ele só não sabia que era o prato principal. Quando percebeu a emboscada já era tarde demais. Virgínia participou olhando, era uma voyeur nata.

Aimée e Jaguar

julho 21, 2009
Cena do filme Aimée e Jaguar

Cena do filme Aimée e Jaguar

Por Calcinha Romântica

Conheço um coração intelectual, apaixonado por histórias e cultura ambulantes. Pouco importam o sexo, a idade, a situação financeira, se belo, se feio. O que vale é ser inteligente, sensível, ter charme, ser engraçado (fundamental), despojado e, claro, ser culto e viajado. Nada mais perigoso para Aimée que uma longa noite em uma mesa de bar regada a livros, filmes, viagens, infância, histórias, vida, experiências… tudo desfilando à sua frente em palavras e olhares. Paixão certa!

Foi assim que, um dia, ela caiu nos braços de uma mulher. Não, ela não é sapatão, nem mesmo bi. É hetero, ou melhor, é uma estranha espécie de pessoa com coração regado a curiosidade e fome de aprender. De resto, nada mais importa. E assim ela vai levando a vida.

O amor feminino aconteceu entre filmes, histórias de viagens, livros e… muito, mas muito tesão. O primeiro beijo foi no banheiro de um bar. É, têm essa vantagem os amores homossexuais. Frequentam os mesmos banheiros.

Cartaz do filme Aimée e Jaguar

Cartaz do filme Aimée e Jaguar

Enganados! Não foi Jaguar quem beijou Aimée. Foi Aimée, certa de sua paixão, que pegou Jaguar pelas mãos, frias pelo nervosismo, e a levou até o banheiro. E o primeiro beijo aconteceu enquanto uma fila se formava na porta. Beijos, mãos, línguas, suspiros, frases: “Você é louca, Aimée”. Saíram do pequeno espaço e viram o bar, que não era gay, já quase vazio. Somente então, deram-se conta do tempo em que mãos e bocas se demoraram lambendo e acariciando intelectualidades.

Saíram dali sem dúvida alguma de para onde iriam: motel. Adeus romantismo, mas inexistiam outras possibilidades.  Aimée segurava firme a mão de Jaguar, como se sempre tivesse namorado mulheres. Jaguar se assustava, queria esconder sua mão, como se nunca tivesse namorado mulheres.

No quarto do motel, Aimée nem pensou que estava na cama com o mesmo sexo. Foi descobrir o corpo as formas femininas arredondadas cavidades gostos seios pele cheiros. Mais uma vez Jaguar se assustou. Será mesmo que era a primeira vez que Aimée amava uma mulher? Sim, era. E teve orgasmos vários, descobertas e desejos muito além da pele.

Aimée e Jaguar namoraram por oito meses. Inexistiam medos em Aimée, porque amava o cérebro de Jaguar, não seu corpo, não seu sexo feminino, não as formas. Claro!, jamais haveria paixão se todos os hormônios não tivessem esbravejado suas fúrias. As duas fugiam do trabalho, na hora do almoço, para se almoçarem. Passavam horas desenhando uma o corpo da outra, fazendo poesias com as mãos.

Um dia, tudo acabou. Tudo acaba. Mas Aimée sabe o gosto do corpo feminino os cheiros os toques a leveza os orgasmos a energia. Mulheres nunca mais aconteceram em sua vida. Mas as paixões cerebrais, sim. Sempre. E Aimée abriria todas as suas guardas novamente para esse sexo sublime, sem medo, sem culpa, sem trauma. Cérebro não tem sexo, palavras não têm sexo, livros, filmes, fotos, viagens não têm sexo, e Aimée ama, e pronto, inteira, sem preconceitos e culpas.