Archive for the ‘depoimentos’ Category

Comédia = tragédia + tempo

outubro 9, 2012

Um amigo ouviu no rádio uma entrevista com a comediante americana Tig Notaro. Três dias depois de saber que estava com câncer em ambos os seios, ela resolveu contar isso num show de stand up comedy. “Isto é uma coisa muito pessoal, gente, relaxem. Eu tenho câncer, obrigado, eu tenho câncer”, disse ela ao som de gargalhadas. Ela contou que a ideia veio quando estava tomando banho e pensando em como contaria ao público. Quando se imaginou contando no meio da comédia, riu às gargalhadas. Então, sem pensar muito, resolveu que seria assim. “Fiz uma biópsia, uma terrível experiência, dolorosa, invasiva, cheguei em casa com muita dor, sem poder me mexer, e pensei: é melhor que seja câncer!” Novas gargalhadas, um pouco de constrangimento, algumas pessoas sérias. “Relaxem, pessoal, vai ficar tudo bem. Isto é, vai ficar tudo bem com vocês, comigo não sei o que vai acontecer”. Mais gargalhadas. Contando, não dá para entender como foi um show maravilhoso. Um trechinho dele pode ser ouvido aqui. E o show inteiro (áudio) pode ser comprado aqui.  Ela descobriu que estava com câncer um ano depois de perceber algo diferente nos seios, mas demorou para se submeter à mamografia. Ela conta que o médico a apalpou e disse “isso parece um caroço”, e ela respondeu “não doutor, isso é meu seio”. “Bom, parece que tem um outro caroço neste aqui também”. “Não doutor, isto é o meu outro seio”. Apesar da natureza agressiva do tumor, após a mastectomia dupla a comediante está confiante na recuperação e, aparentemente, o câncer não se espalhou.

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Ausência de quem amamos

abril 28, 2011

Perder uma mãe quando ainda se é menina nos faz amadurecer mais depressa. Começamos a ver a vida sob outra perspectiva e passamos a contar mais com nós mesmos. Temos de encarar os problemas que forem surgindo da maneira que for possível. Tornamos-nos insensíveis algumas vezes para suportar o que nos afeta emocionalmente. Pensamos que vencemos as dificuldades, mas com o passar do tempo essa forma de defesa nos mostra que apenas acumulamos uma série de situações não resolvidas.

Quando começamos a nos relacionar com alguém, aparecem as dificuldades de se entregar totalmente, porque temos medo de gostar tanto da pessoa que, ao imaginarmos ficar sem ela, talvez não suportemos. O medo é um sentimento importante, que nos mantém alerta para nos defendermos de alguma ameaça, mas não podemos deixar que ele nos domine por completo. Caso isso aconteça, não viveremos os momentos mais importantes de cada fase da vida.

Viver situações boas e ruins é um aprendizado para a alma. Não dá para fugir eternamente das adversidades da vida. Descobrir uma forma de conviver com o sofrimento da perda é fundamental para  que sigamos em frente.

Quando nossos pais envelhecem…

março 10, 2010

(por calcinha exocet)

O ano de 2010 está sugando minhas energias e meu tempo. Por isso ando sumida do blog. Poucas receitas, pouco assunto e muito trabalho. Hoje consegui retornar para falar de como a vida passa rápido. E, de repente, temos nossa mãe precisando da gente. E é um prazer imenso ser-lhe útil. Gostaria tanto de ter mais tempo para ficar conversando, recordando nosso passado juntas, ouvindo suas histórias da mocidade, ler para ela os livros maravilhosos que li, contar-lhe o que a vida me ensinou e como foi difícil aprender.

Ah, por que a nossa vida em sociedade exige tanto da gente? O tempo está cada vez menor! Tantas tarefas em nossa vida! Como posso retribuir o amor, a dedicação e a paciência que ela teve? Ter uma mãe é uma experiência fantástica em minha vida. Também sou mãe e por isso aprendi a valorizar a minha. Hoje mais madura posso vê-la como um ser humano que cometeu erros por imaturidade e que acertou muitas vezes por experiência e intuição.

Esta senhora nos seus 80 anos sempre foi independente e autossuficiente e agora precisa de mim! E não pensem que está gostando dessa ideia. Ao contrário, mesmo com diabete, hipertensa, teima em morar sozinha. Reclama que ligo todos os dias para saber como está. Semana passada se não fosse à sua residência não saberia que estava deitada o dia todo e sem comida em casa porque a glicemia estava alta. Tornou-se uma filha turrona, portanto, estou aprendendo a exercitar a compreensão e a paciência.

Minha amiga, calcinha romântica, passou há uns três anos atrás pela experiência de cuidar do pai que está doente. Não foi fácil para ela porque ele está com a doença Demência com Corpus de Levy. Dessa experiência nasceu um conto muito sensível que me fez chorar e que participou de um concurso de contos do Rio, promovido pelo jornal O Globo, em 2007. Chama-se A Primeira Vez.

Conversando com essa mesma amiga sobre a fase que vivencio com minha mãe e a situação do pai dela, ela me falou do filme argentino “O filho da noiva”. No filme o protagonista é um quarentão em crise, cuja mãe sofre de alzheimer.  Peguei o filme para ver neste final de semana e me dei conta de que já o tinha visto. Embora seja uma história marcante, só agora vendo pela segunda vez me tocou mais profundamente. A memória é um dos assuntos principais do filme. Chamou-me a atenção a cena do casamento em que o filho pergunta para a mãe se ela o ama, e ela responde que sim, e se ela ama o pai, ao que ela também diz sim. Embora ela muitas vezes não reconheça sua família, é como se o amor fosse mais forte e inesquecível. Mas fiquei pensando que isso é um pouco de romantismo.  Talvez a doença possa apagar completamente o sentimento de amor. E isso é uma das coisas que me angustia, pensar que podemos esquecer o imenso amor que sentimos por alguém. Isso realmente seria ainda pior do que esquecer o nome ou não reconhecer esse alguém. Um outro filme, canadense, também é sobre o alzheimer, “Um amor mais forte que o esquecimento“, e fala sobre o efeito desta doença no sentimento de amor, no caso o amor de uma esposa pelo seu marido, que é esquecido por ela. Mas o amor pelo marido, por mais forte que seja, não se compara ao amor pelo filho.

Infelizmente, acredito, esta terrível doença não faz distinção e é capaz de também fazer sumir este sentimento direcionado. Penso que a capacidade geral de amar e a necessidade de ser amado não desaparece. Então podemos reconquistar a cada minuto o amor da pessoa vítima de alzheimer e fazê-la se sentir amada. Como os personagens Nino e o filho, do filme argentino, e o personagem Grant, do filme canadense.

Depressão: frescura ou realidade?

dezembro 28, 2009

(por calcinha florida)

A depressão é caracterizada na medicina  por ser uma doença que afeta o estado de humor  da pessoa, deixando-a com predomínio anormal de tristeza. Todas as pessoas, homens e mulheres de qualquer faixa etária podem ser atingidas, porém, as mulheres são duas vezes mais que os homens.

Entretanto, caros leitores, essa definição por si só é muito superficial, sou portadora deste mal e como uma servidora da saúde, apaixonada por psicofarmacologia, digo isso, mas sem definir nada.

Tentarei neste texto, de forma simples, até porque a doença não me permite escrever textos muito elaborados…

Imagine acordar e, aos poucos, ou, às vezes, subitamente perder o desejo. Você poderia me questionar, desejo de quê? Eu diria: não tenho desejos. Não é só uma tristeza constante sem motivo aparente, é uma ausência de si mesma. É como a morte! Na verdade, é uma morte, só que o corpo insiste em respirar. Em um primeiro momento, queremos nos convencer de que aquilo não passa de um dia ruim, um mal humor passageiro, uma TPM. O problema é que a sensação não passa… já não dá pra disfarçar. Então pensamos que o problema é o companheiro que não te dá mais tesão, ou o trabalho, ou a família. Enfim, buscamos diversas razões para toda aquela sensação gélida que não te deixa parar de chorar copiosamente.

Um dia uma amiga me disse que era depressão e marcou uma consulta com um psiquiatra. Que alívio, alguém que me entendia. Tomei os medicamentos, consegui dormir e voltei para o mundo real. Mas a depressão é traiçoeira, me pegou de novo e, mais uma vez, achava que era frescura. Aliás, na verdade, as pessoas mais importantes da minha vida diziam isso. Minha mãe dizia que eu estava gorda por causa dos remédios e que os médicos não sabiam de nada, que depressão era falta de fé, falta de Deus. E com essa linha de raciocínio eu quase morri! Ao contrário do que dizia minha mãe, Deus sabia da cruz que eu carregava. Não dava mais para negar a dor forte no peito, noites e noites sem dormir, mania de perseguição, visão distorcida da realidade, entre muitas outras dores.

Voltei a me consultar com mais quatro psiquiatras e muitas tentativas de medicações frustradas. Não pense que qualquer antidepressivo irá resolver seu problema… Achar um medicamento correto para cada indivíduo é uma saga. Entre essas tentativas que já duram dois anos, após cinco noites sem dormir, tive uma conversa muito séria com Nossa Senhora: ” Mãe, tu sabes o quanto sofro e sabes também que Deus só dá a cruz quando podemos carregar. Mãe, tu sabes que não consigo. Mãe, eu desisto. Quando me encontrares, não deixem me levar ao vale dos suicidas, defenda-me”. Tomei uma caixa de tranqüilizantes e me despedi de quem amava, com a certeza no coração de que no outro dia estaria em outro lugar, sem aquela dor que me deixou na cama inválida e também que minha família ficaria muito feliz, pois eu era um grande fardo. Enrolei meu terço na mão e dormi com a sua imagem para que ela pudesse me levar a um lugar sem dor.

Surpresa! Acordei no outro dia, que raiva! Mas os sintomas eram evidentes e fui levada ao hospital, lá encontrei pessoas sensíveis e insensíveis, achando que eu queria chamar atenção. Na verdade, queria fazer tudo de uma maneira bem discreta, morrer dormindo. Não vou negar que essa idéia é muito atraente até os dias de hoje. Enfim, depois de quase um ano de terapia e diversas tentativas medicamentosas a dor física passou. Sim, doía muito fisicamente. Às vezes, ainda dói. Mas hoje sei que a dor é real e tenho ferramentas para diminuí-la ou cessá-la. Bem, ao final disso tudo, aprendi que não fui fresca, mas muito forte e que o medicamento, a terapia, o exercício físico, até os óleos de lavanda e, sobretudo, Deus, são grandes ferramentas para essa guerra. Não subestime sua dor, muito menos a dor alheia, a depressão é real e perigosa. Por isso seja forte e corajosa, enfrente essa doença de frente e não abaixe sua cabeça, pois se você ainda não venceu a guerra é porque ela ainda não acabou.