Archive for the ‘literatura’ Category

O País das Neves

fevereiro 1, 2012

Hoje assistindo ao Bom Dia Brasil, soube de uma nevasca no Japão que matou umas 50 pessoas. Coincidentemente terminei a leitura do livro O País Das Neves, de Yasunari Kawabata, que trata da história de uma gueixa, Komako, que realmente existiu. Na ficção, Komako vive numa vila termal localizada nas montanhas. Muitas vezes encontramos o relato, entre os personagens principais, sobre  as nevascas e a neve que chega a 3 m de altura, tal qual a notícia afirmou pela manhã, no Bom Dia Brasil.

Parece que Kawabata escreveu esta obra na década de 1960. É impressionante a descrição da obra e o relato de hoje pelo jornal serem iguais! É como se desde 1960 nada houvesse mudado. Parece-me que as vilas do País das Neves estão paradas no tempo. As mesmas dificuldades como a desobstrução dos trilhos, o trabalho dos bombeiros e do povoado para abrir passagem na neve de 2,5m ou 3m. Vejamos um trecho da ficção:

“Shimamura continuava aquecido pelo calor do trem e ainda não sentia o frio que fazia ali fora, mas por nunca haver experimentado o inverno do País das Neves, a primeira coisa que lhe chamou a atenção foi o traje das pessoas daquele lugar.

– É tão frio assim para se vestirem desse jeito?

– É, já estamos preparados para o inverno. É muito fria a noite, após uma nevasca, que antecede um dia de tempo bom. Esta noite já deve estar abaixo de zero…

– Isso aqui é abaixo de zero? – Olhando as graciosas estalactites de gelo dos beiras do telhado, Shimamura entrou no carro com o encarregado da hospedaria. A cor da neve deixava ainda mais profundos os telhados já baixos das casas, como se a vila tivesse mergulhado silenciosamente na neve.

– Qualquer coisa que se toca é muito gelada.

– No ano passado, chegou a vinte graus abaixo de zero.

– E a neve?

– Normalmente fica entre dois metros e dois e meio, mas quando neva bastante passa de três metros e meio.”

Kawabata é um especialista ao descrever personagens reais, mesmo a gente sabendo que a maioria deles nunca existiu. São personagens complexos e misteriosos, paradoxais. Komako, sendo uma gueixa que existiu na vida real, é extremamente complexa. Algumas vezes me peguei irritada com ela, por causa de seus modos inconstantes.

A descrição da paisagem e da mulher é profundamente poética. Cada vez que leio uma de suas obras me encanto com seu estilo. Um estilo bem diferente do que estou acostumada. Ler é realmente uma descoberta.

Depois que entrar no Trem Noturno não há volta!

novembro 30, 2011

Trem noturno para Lisboa, romance de Pascoal Mercier, é um livro instigante, que levanta questões sobre a vida, a solidão e a morte. Na verdade, Pascoal Mercier é o pseudônimo de Peter Bieri, professor de filosofia em Berlim.

A história é de Raimund Gregorius, filólogo clássico, que após um encontro inusitado com uma mulher na ponte Kirchenfeld, em Berna, resolve mudar sua vida. Uma mulher misteriosa, falante da língua portuguesa, cuja sonoridade da língua o encanta, faz com que ele sinta uma urgência de vida. Um número de telefone anotado em sua testa pela misteriosa mulher torna-se o ponto de partida para que busque outra vida.

Existem alguns acontecimentos do cotidiano que nos avisam intimamente o momento da mudança? Como saber que um encontro por acaso com alguém nos diz que chegou a hora? O desejo da mudança já o habitava há tempos, bastou uma fagulha para que ele sentisse a firmeza do momento.

A mudança é lenta, não há como romper com a solidez de um estilo de vida de uma hora para outra. As dificuldades que o personagem encontra são compreensíveis, pois passou quase uma vida inteira sendo e fazendo as mesmas coisas, sem desvio nenhum. Raimund era como as línguas clássicas, antiquado, pesado, morto.

Assustado com a súbita consciência do tempo que se esvai, deixa para trás sua rotina organizada e pega o trem noturno para Lisboa. A atração pela sonoridade da língua o faz tentar aprendê-la e comprar um livro do português Amadeu de Prado, que caiu em suas mãos por acaso. Prado é uma espécie de guia para ele, pois tece reflexões sobre infinitas experiências da vida como solidão, amizade, lealdade, amor e morte.

É possivel ao se conhecer outra pessoa, compreender outra vida? O que isto pode acrescentar para o conhecimento de nós mesmos?  Os escritos de Prado – tão maravilhosos por sinal – fazem com que Raimond enxergue a si mesmo e enfrente seus maiores medos. Intrigado com a vida de Prado,  investiga os motivos que levaram o admirável médico e poeta a lutar contra a ditadura de Salazar. Essa jornada em busca de conhecer a vida de outro homem, leva-o a se encontrar consigo lamentavelmente tarde.

O número do telefone que guardou durante todo o tempo – que me intrigou durante toda a leitura – tornou-se, simbolicamente, o número de um bilhete de passagem sem volta.

Troca troca

janeiro 21, 2011

Uma blogueira de Brasília está organizando mais um evento de compartilhamento literário. É o “Lá vai o livro”. Se você mora em Brasília, veja como participar:

» Leia um bom livro;

» Deixe no blog www.lavaiolivro.blogspot.com um comentário falando da obra e contando quando e onde pretende deixá-la;

» Escreva ou cole o texto abaixo indicado, na contracapa ou na primeira página do livro;

» Deixe-o em um local público;

» Se você achou um livro que foi deixado por alguém, escreva um comentário contando como foi a experiência.

Não esqueça de contar aqui no Calcinhas também!

As Calcinhas também vão participar, deixando dois livros com temas femininos.