Archive for the ‘mulher’ Category

A decisão cabe a elas

abril 2, 2012

por Calcinha de Cristal

Fiquei um tempão sem escrever por aqui. Blog é uma coisa que envolve muito e, por falta de tempo, a gente acaba priorizando outras coisas. Mas tem um assunto que me motivou a voltar. Semana que vem está marcado, no Supremo Tribunal Federal, o julgamento de uma ação proposta pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Saúde – CNTS em favor do direito das mulheres optarem por não continuar a gravidez no caso de anencefalia, uma má formação do feto, que não desenvolve as estruturas cerebrais.

Acho uma crueldade, uma violência, uma indignidade obrigar a mulher a levar a gestação até o parto de um feto que, inclusive legalmente, já está morto. A morte cerebral é considerada a morte do indivíduo, autorizando a doação dos órgãos, conforme a Resolução 1480/1997 do Conselho Federal de Medicina. Este é o raciocínio de Carlos Ayres Britto em seu voto, no qual lembra o trecho da música Pedaço de Mim, de Chico Buarque: “A saudade é o revés de um parto. É arrumar o quarto do filho que já morreu”.

Quem matou o feto não foi a mulher que o leva no ventre. Foi a natureza que falhou. A polêmica decorre de um misto de conceitos religiosos e puro desrespeito à mulher. A mulher que quiser optar por esperar o traumatizante e inútil parto é livre para fazê-lo, se assim sua consciência ou seus sentimentos religiosos determinarem. Mas aquelas que não quiserem devem ter sua vontade respeitada.

Pesquisando para este post, encontrei vários blogs de cunho religioso, com fotos apelativas e histórias de crianças que teriam sido diagnosticadas com anencefalia e que sobrevivem há vários anos.  Acontece que existem outros casos de malformação do sistema nervoso que não se confundem com anencefalia, como o de um bebê frequentemente citado pela Igreja como exemplo de um caso de anencefalia em que a criança sobreviveu. O diagnóstico de anencefalia é preciso e o prognóstico é certo: a morte do feto assim que deixar o útero da mãe. A falta de estruturas nervosas essenciais não permite que o feto respire sozinho.

Espero que as Ministras e os Ministros do STF estejam sob a luz da mesma sabedoria do processo sobre experiências com células tronco.

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Gisele não precisa aceitar o estereótipo de loura burra

outubro 15, 2011

A empresa de lingerie conseguiu o que queria. A propaganda recebeu atenção por conta da polêmica. E continua no ar.

Não sou a favor da proibição, embora eu ache que a peça publicitária realmente reforce a imagem de mulher como objeto de consumo. Mas trilhões de outras propagandas fazem o mesmo.

Na verdade, o que me surpreende é a Gisele Bundchen, uma das cem pessoas mais ricas do mundo, segundo a revista forbes, e a modelo mais bem remunerada, aceitar fazer esta propaganda, que só prejudica sua imagem.

Imagem que já havia chegado ao subsolo com a outra propaganda, ainda pior, em que ela esfregava o chão da casa sob as ordens de um marido machista.

Acho simplesmente burrice. Alguém pode dizer que, pelo contrário, isto é prova de inteligência, afinal os milhões continuam entrando. Acontece que a simples beleza como fonte de dinheiro um dia vai acabar. Um dia o ser humano Gisele vai voltar a ser mais importante que a capa linda. E ela talvez perceba que poderia ter-se tornado  algo mais. Muitas outras belas mulheres trilharam este caminho com o amadurecimento.

Gisele conquistou merecidamente um lugar ao sol. Nâo precisava aceitar a imposição do estereótipo de loura burra. Ela vale muito, como pessoa. Mas aceita ser tratada como se não valesse nada.

Hoje comemora-se o dia intenacional da mulher!

março 8, 2011

Para todas as nossas leitoras, um feliz dia!

Anaïs Nin – uma noção do mundo artístico da mulher.

dezembro 26, 2010

Por calcinha exocet

Anaïs Nin foi uma figura literária única. Romancista francesa, eroticista apaixonada e contista, que ganhou fama internacional com seus Diários. Abrangendo os anos 1931-1974, eles dão um relato da viagem de uma mulher para a autodescoberta. “Tudo bem se uma mulher for, acima de tudo, humana. Eu sou uma mulher, antes de tudo.” (O Diário de Anaïs Nin, vol. I, 1966)  Anaïs Nin foi amplamente ignorada até a década de 1960. Hoje ela é considerada uma das principais escritoras do século 20 e fonte de inspiração para as mulheres que desafiam o papel convencional do gênero.

“Eu esperava um homem para a demonstração das sessenta e seis maneiras de fazer amor. Henry negocia  o preço. As mulheres sorriem. A maior tem características ousadas, cabelo preto, cacheado, que quase esconde o rosto. A menor delas tem um rosto pálido, com cabelos loiros. Elas são como mãe e filha. Usam sapatos de salto alto, meias pretas com ligas nas coxas, e quimono aberto solto. Levam-nos para cima. Andam à frente, balançando os quadris. ” (dos Diários 1931-1934)

Uma figura literária obscura  na maior parte  de sua vida. Quando seus diários – mantidos desde 1931 – começaram a ser publicados em 1966, Anais Nin chegou aos olhos do público. Desde então, os dez volumes do diário de Anaïs Nin têm permanecido populares. São mais do que simples diários, cada volume tem um tema, e provavelmente foram escritos com a intenção de que fossem publicados posteriormente. Cartas que ela trocou com amigos íntimos, incluindo Henry Miller, também foram publicadas. A popularidade dos diários despertou o interesse em seus romances publicados anteriormente. O Delta de Vênus e Little Birds, escritos originalmente em 1940, foram publicados após sua morte (1977, 1979).

Anaïs Nin é conhecida, também, por seus amantes, que incluem Henry Miller, Edmund Wilson, Gore Vidal e Otto Rank. Foi casada com Hugh Guiler, de Nova York, que tolerava suas escapadas. Também teve um segundo casamento, bígamo, com Rupert Pole, na Califórnia. O casamento foi anulado quando ficou mais famosa. Estava morando com Pole no momento da sua morte, e ele viu a publicação de uma nova edição de seus diários, com trechos antes omitidos.

As ideias de Anaïs Nin sobre as naturezas de “masculino ” e “feminino”  têm influenciado parte do movimento feminista conhecido como “feminismo da diferença”. Ela se dissociou no final de sua vida das formas mais políticas do feminismo, acreditando que o autoconhecimento através do diário era a fonte da libertação pessoal.

Divagações sobre relacionamentos, homens-problema, dia dos namorados…

junho 12, 2010

(Por Calcinha Sensível)

Por que nos apaixonamos pelas pessoas erradas?

Por que repetimos sempre os mesmos padrões?

Depois de fazer 10 anos de psicoterapia cheguei a algumas conclusões. Muitas. Inúmeras. Mas mudar… Aí é que são elas.

As criaturas na minha vida são sempre semelhantes. Todas complicadas. Mas não é complicadinho não… É complicado MESMO. É caso de tratamento. É gente que é mal resolvida e não sabe que é. Eu posso ser mal resolvida em vários aspectos, mas tenho plena consciência disto.  Busco soluções, alternativas.

Já cansei de psicoterapia, já vivo bem sem antidepressivos (melhor do que com eles). Estou mais na onda de meditação, tentando uma conexão com o Supremo.

Tenho meus “dias de depressão”, que eu nem chamaria de depressão (pois esta eu já tive algumas vezes e sei que é diferente). É um estado depressivo, um momento. Que pode durar 1, 2, 3 dias, até uma semana. Mas depois levanto e sigo. Algo como: “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima!”. Esta sou eu atualmente.

Mas voltando ao início. Agora estou neste impasse. Apaixonei-me pela pessoa errada. Ah, vocês poderiam pensar, mas ninguém é perfeito! Eu sei! Eu sei! Mas este personagem objeto do meu amor é complicado MESMO, não é brinquedo não.

Precisa de tratamento. Tem TOC (transtorno obsessivo-compulsivo). Acha que não tem, diz que é feliz assim. Não consigo conviver com as manias dele, estou pirando. Já fiz de tudo prá convencê-lo de que há tratamento: remédios, terapia, ou os 2 juntos. O rapaz se recusa. No mais tem outros defeitos paralelos, fruto de uma vida de solidão. É egoísta, pensa só nele, não sabe transigir. Sabem a música da Marisa Monte: “Já sei namorar…”!?! Pois bem, ele não sabe namorar!! Parece que nunca namorou. As coisas mínimas do dia-a-dia ele não sabe fazer se não for do jeito dele. É bem imaturo. Aos 42! Putz! Eu por vezes sofro, por vezes me irrito, vou alternando.

Agora, vocês devem estar pensando: o que você viu neste homem-criança? Não sei! Gosto dele de graça. Ele é gentil, carinhoso. E vamos confessar: bom de cama. Estas 3 características andam TÃO RARAS! Raras mesmo. Na cidade grande- super-mega onde moro o individualismo impera. Os homens estão intratáveis. E ele é um doce. Carência minha? Pode ser.

Eu termino com ele depois fico com saudades. Ele por sua vez, numa atitude infantil própria dele, finge que eu não terminei (!!), continua me procurando como se nada tivesse acontecido. Liga: “Oi amor, dormiu bem? Liguei para dar bom dia!”. Eu na maioria das vezes digo: “A gente terminou, lembra?”. Ele não responde, apenas diz que gosta muito de mim.

E por aí vai.

Talvez eu esteja neste estado deprimido por conta do dia dos namorados que está chegando. Talvez eu devesse ter terminado só depois do dia dos namorados. Acho que este foi o problema.

Feliz dia dos namorados para todos! Para quem tem e para quem não tem.

Dia da mulher

março 8, 2010

(por calcinha comestível)

O dia 8 de março, como todos sabem, é o dia da mulher. Não é um dia de festa, ou não é só um dia de festa, é um dia principalmente de luta contra a violência e pela igualdade de direitos.

Não é certa a origem da data escolhida. Houve um incêndio numa fábrica em Nova Iorque, em 1910, que matou 146 costureiras, vítimas de péssimas condições de trabalho.  Em geral, no imaginário popular, este fato é lembrado como a referência para a data. Mas o incêndio aconteceu no dia 25 de março.

No dia 08 de março de 1857 houve um protesto de mulheres, em Nova Iorque, por melhores condições de trabalho. Mas parece que não houve incêndio, muito menos incêndio criminoso. Não importa, o que interessa é o simbolismo. Ouço alguns homens e até mulheres dizendo que esse dia não se justifica e que deveria ter um dia do homem também. É ridículo, homens não são discriminados ou são vítimas de violência só por serem homens.

Dia Internacional Da Não-Violência Contra A Mulher

novembro 25, 2009

Hoje é o dia internacional da não-violência contra a mulher. Agredir uma mulher, é agredir todas as mulheres!

Mais informações clique aqui e aqui também!

Florbela Espanca: “… e não haver gestos novos nem palavras novas”.

novembro 23, 2009

(por calcinha exocet)

Quem já ouviu Raimundo Fagner cantando um poema de Florbela, Fanatismo?

“Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida

Meus olhos andam cegos de te ver

Não és sequer a razão do meu viver

Pois que tu és já toda a minha vida

Não vejo nada assim enlouquecida

Passo no mundo, meu amor, a ler

O misterioso livro do seu ser

A mesma história tantas vezes lida

Tudo no mundo é frágil, tudo passa

Quando me dizem isto, toda a graça

Duma boca divina fala em mim

E, olhos postos em ti, digo de rastros:

‘Ah! Podem voar mundos, morrer astros,

Que tu és como um Deus, princípio e fim!…”

Essa poetisa portuguesa, nasceu em 8 de dezembro de 1894, em Vila Viçosa (Alentejo). Casou-se três vezes e morreu jovem, aos 36 anos. Seu primeiro casamento foi aos 19 anos, com Alberto Moutinho, um colega de estudos. Devido às dificuldades financeiras, ela e seu marido saem de Redondo, em 1915, e vão morar com o pai, João Maria Espanca, em Évora. Alberto Moutinho tem um caso com a empregada da casa, Henriqueta de Almeida, e, então, divorcia-se de Florbela.

Em 1916, volta a Redondo e reúne uma seleção de sua produção de 1915, inaugura o projeto Trocando Olhares, coletânea de 88 poemas e 3 contos. “O caderno que deu origem ao projeto encontra-se na Biblioteca Nacional de Lisboa, contendo uma profusão de poemas, rabiscos e anotações que seriam mais tarde ponto de partida para duas antologias, onde os poemas já devidamente esclarecidos e emendados comporão o Livro de Mágoas e o Livro de Soror Saudade.”  Fonte

Casa-se novamente, em 1921, com um oficial de artilharia, António Guimarães. Depois de sofrer dois abortos espontâneos, seu casamento termina pela segunda vez e sua família deixa de falar com ela. Essa nova situação a abala muito e sua saúde física e psicológica começa a dar sinais de fragilidade. Em 1925, em Matosinhos, casa-se pela terceira vez com o médico Mário Laje. Em 1927, perde o irmão, Apeles Espanca, num grave acidente de avião. A morte do irmão, mais um drama em sua vida, a afeta psicologicamente.

Em 2 de dezembro de 1930, Florbela encerra seu Diário do Último Ano com a seguinte frase: “… e não haver gestos novos nem palavras novas”. Às duas horas do dia 8 de dezembro de 1930 , no dia de seu aniversário, Florbela Espanca suicida-se, em Matosinhos, ingerindo dois frascos de Veronal. Postumamente, foram publicadas as obras Charneca em Flor (1930), Cartas de Florbela Espanca (1930), Juvenília (1930), As Marcas do Destino (1931, contos), Cartas de Florbela Espanca (1949) e Diário Do Último Ano Seguido De um Poema Sem Título (1981).

Florbela Espanca teve um frio acolhimento em vida, a crítica da época não entendeu sua poesia. Esta caracteriza-se pela recorrência dos temas do sofrimento, da solidão, do desencanto, somados a uma imensa ternura e a um desejo de felicidade e plenitude. Sua linguagem é  intensamente passional, centrada nas suas próprias frustrações e anseios. Seus versos estão também carregados de erotismo: “Olhos a arder em êxtase de amor,/ Boca a saber a sol, a fruto, a mel/ Sou a charneca rude a abrir em flor!”. Florbela tornou-se uma grande personalidade feminina nas primeiras décadas da literatura portuguesa do século XX.

Um monstro sagrado do teatro brasileiro

setembro 28, 2009

Dulcina de Moraes

(por calcinha exocet)

Nos anos 90, fiz graduação de educação artística na Fundação Brasileira de Teatro – FBT, cuja fundadora foi Dulcina de Moraes. Mesmo não sendo aluna de teatro tive a oportunidade de vê-la ensinando seus atores a interpretar e fiquei encantada com a sua técnica e profissionalismo. Naquele momento, tive vontade de ser atriz. Entrei escondida no teatro pois ela detestava ser incomodada e passei momentos emocionantes nessa condição.

A atriz foi uma mulher enigmática, extremamente inteligente. Parecia-me estar sempre interpretando uma personagem mesmo fora de seu campo de atuação. Foi uma líder. Amigos, como o dançarino Fernando de Azevedo, saíram do Rio de Janeiro e juntaram-se a ela na aventura de realizar seu sonho: transformar Brasília na capital das artes cênicas. Infelizmente, isso não aconteceu. Brasília, desde seu nascimento, era mais uma cidade política do que artística. As artes cênicas continuaram mesmo nos grandes centros urbanos como Rio de Janeiro e São Paulo.

Foi uma das maiores atrizes do teatro brasileiro, nasceu em berço artístico, sendo seus pais os atores Átila e Conchita de Moraes. A atriz estreou nos palcos na década de 20, e nos anos seguintes tornou-se um dos maiores nomes do nosso teatro, cuja companhia, Dulcina-Odilon, com seu marido e ator Odilon Azevedo, assinou grandes montagens. Protagonizou a peça Amor (1933), do comediógrafo Oduvaldo Viana. O sucesso da atriz atingiu as camadas mais altas da sociedade e Dulcina fez moda: os vestidos que usava em cena serviam como modelo para o público feminino (tive a oportunidade de conhecer seus vestidos quando houve uma exposição em seu teatro). Ganhou medalha do mérito da Associação Brasileira de Críticos Teatrais, ABCT, como melhor atriz do ano de 1939 pelo conjunto de trabalhos.

Ganhou novamente o Prêmio ABCT, em 1943, mas naquele momento como melhor direção por Mulheres, de Claire Boothe.

Em 1952, Dulcina já era a primeira atriz do teatro brasileiro. Voltou a ser criticada pela interpretação desmedida em A Doce Inimiga, de André-Paul Antoine, em 1953, ano em que ganhou o Prêmio Municipal de Teatro de melhor direção por O Imperador Galante, de Raimundo Magalhães Júnior.

No final dos anos 50, convencida da importância de revestir a profissão de ator de uma preparação técnica,  cria a Fundação Brasileira de Teatro, FBT, onde realiza cursos e espetáculos. Transferiu sua fundação para a capital federal em 1972.

A atriz só voltou ao palco carioca a convite e sob direção de Bibi Ferreira, em 1981, encenando a peça especialmente  escrita para ela: O melhor dos pecados, de Sérgio Viotti. Faleceu em Brasília, em 1996, cidade onde se radicou e se dedicou à FBT, sem as láureas que merecia pela sua importância nas artes cênicas brasileiras.

Maria Bonita: Uma mulher brasileira

setembro 16, 2009

mariabonita(Por calcinha bordada)

Minha mãe foi criada onde Lampião e Maria Bonita foram assassinados, no Município de Poço Redondo, Sergipe. Quando eles morreram, ela tinha 11 anos. Eu, quando também era criança, fui muitas vezes à pequena cidade de Poço Redondo, onde meu avô morava. Talvez por isso me sinta, de alguma forma, ligada à história deste famoso casal. Nesta cidadezinha não lembro de ter visto nenhuma referência à Lampião, embora eu tenha ouvido, na infância, minha mãe dizer que todos tinham medo dele. Sei que ele é bandido para alguns e herói para outros. Isto dependerá do ponto de vista. Mas sei também que ele entrou no cangaço para vingar a morte do pai, um homem pacífico, por um delegado de polícia. A revolta dele contra as autoridades tem um motivo muito forte para existir. Precisamos lembrar que, então, o nordeste era um território praticamente sem lei, ou melhor, em que a lei só valia para alguns, chamados coronéis. Esta herança perversa sobrevive até hoje. Não acredito que ele fosse um bandido comum, acho que suas razões eram políticas, embora ele tenha apelado para a luta armada.

As roupas características do grupo, inspiradas em heróis e guerreiros, como Napoleão Bonaparte, eram desenhadas e confeccionadas pelo próprio Lampião. Os chapéus, as botas, as cartucheiras, os ornamentos em ouro e prata, mostram sua habilidade como artesão. Aliás, Lampião era tão habilidoso que era ele quem fazia os partos das mulheres no seu grupo. Não é impossível, mas acho difícil imaginar que um homem com este comportamento cometesse assassinatos por pura crueldade. Para mim, ele respondia à violência com violência, estava em guerra contra as autoridades.

Mas eu me sinto especialmente ligada à história de Maria Bonita. Ela nasceu no dia 08 de março de 1911, coincidentemente o dia internacional da mulher. Já era casada quando conheceu o homem que a levaria para viver no sertão, na caatinga, em meio àquela paisagem agreste. Sentiu-se atraída por Virgulino Ferreira assim que o conheceu. E a mãe de Maria Bonita contou para Lampião o sentimento da filha. Após um ano de namoro, Lampião a chamou para a dura vida do cangaço. Ela abandonou, sem pensar, o marido que a maltratava. Foi uma pioneira. Após a sua entrada para o grupo, outras mulheres a seguiram:

“A partir daí, outras mulheres também entraram para o cangaço. Seria uma verdadeira revolução feminista, uma vez que se emanciparam e impuseram respeito. Muito embora não participassem dos combates, de forma direta, elas eram preciosas colaboradoras, tomando parte das brigadas e/ou empreitadas mais perigosas, cuidando dos feridos, cozinhando, lavando, e, principalmente, dando amor aos companheiros. Fosse representando um porto seguro, ou funcionando como um ponto de apoio importante, para se implorar algum tipo de clemência junto aos cangaceiros, as representantes do sexo feminino contribuíam para acalmar e humanizar os homens, limitando-lhes os excessos de desmandos. Muitas portavam armas de cano curto (do tipo Mauser) e, em caso de defesa pessoal, estavam sempre prontas para atirar. Excetuando-se Lampião e Maria Bonita, os casais mais famosos do cangaço foram: Corisco e Dadá; Galo e Inacinha; Moita Brava e Sebastiana; José Sereno e Cila; Labareda e Maria; José Baiano e Lídia; e Luís Pedro e Neném.”

“Cabe ressaltar que, apesar de receberem a proteção paternalista dos cangaceiros, a vida das mulheres era bastante difícil. Levar a termo as gestações no desconforto da caatinga, por exemplo, significava sofrimento; e, muitas vezes, logo após o parto, elas eram obrigadas a fazer longas caminhadas, fugindo das volantes. Caso não possuíssem uma resistência física incomum, não conseguiam sobreviver àquele cotidiano inóspito.”

Mas, pelo menos para mim, Maria Bonita foi especial. Uma mulher extremamente forte e determinada, jamais demonstrou arrependimento por ter seguido Virgulino, foi sua companheira em todos os momentos. Era tratada por Lampião e por todos os homens do grupo com muito respeito. Era uma mulher incomum. Foram assassinados juntos. Dizem que ela foi degolada viva. A maneira bárbara como foram tratados, decaptados, o corpo deixado para os urubus e as cabeças colocadas em exposição em praça pública, mostra os tempos sem lei então vividos. Se eles foram bárbaros, o Estado não era nada diferente. As cabeças de Lampião e Maria Bonita foram estudadas para ver se encontravam alguma coisa que diferenciasse “bandidos” das pessoas comuns. Nada se encontrou. Depois destes “estudos”, as cabeças ficaram ainda trinta anos expostas em um museu na Bahia, apesar da luta das famílias para que eles tivessem um enterro digno, o que só aconteceu em 1969.

Lampião e Maria Bonita deixaram uma filha, Expedita, que teve filhos e netos. Seus pais foram mortos quando ela tinha cinco anos, mas ela diz que ainda guarda recordações deles. Reclama da discriminação que sua família sofre e diz que não há respeito pela história deles. Afirma também que não há respeito pela imagem do casal, ou pelos direitos de uso dessa imagem. Muitos filmes foram feitos e livros foram escritos sem que a família fosse consultada. Maria Bonita é um nome tão forte que virou marca de roupa. Mas a família não recebe nada pelo uso do nome. A confecção não pode alegar que o nome não tem nenhuma relação com a Maria Bonita histórica. A coleção deste ano tem inspiração regional, com o uso de linho pintado à mão e tecidos de algodão, além de sandálias de couro.