Archive for the ‘mulher’ Category

Big Brother: privacidade e internet

setembro 8, 2009

big brother

(por calcinha de cristal)

Em 1948 George Orwell escreveu o livro 1984. Como se vê, os últimos dígitos referem-se ao ano em que ele foi escrito, de forma invertida. Naqueles anos pós-guerra o mundo vivia um otimismo, aparentemente a liberdade havia triunfado sobre a opressão nazista. Claro, a realidade era muito mais complexa. Iniciava-se a guerra fria, a caça às bruxas, leia-se aos comunistas.

George Orwell imaginou um mundo ao inverso do que ele aparentava. Um mundo vigiado, onde a individualidade cedia ante o domínio de um poder absolutista. Um mundo sem liberdade. Surgia a expressão “Big Brother”, o grande irmão, que tudo sabia, tudo via. A expressão foi vulgarizada pelos programas de televisão.

Talvez as pessoas não tenham se dado conta de que vivemos a era do Grande Irmão, fora da TV. Um exemplo recente foi o da professora que perdeu o emprego ao ter a imagem exposta na internet. Era um momento de lazer e, visto de longe, logo cairia no esquecimento pelas testemunhas. Mas dezenas de câmeras estavam apontadas para ela, ampliando os detalhes de seu rebolado, sob a música (?) “tudo enfiadinho”.

Não é só isso. Tudo pode ser facilmente monitorado, desde os e-mails até sua conta bancária, suas despesas de cartão. Nossa vida está exposta e pode cair na rede.

Alguém pode dizer que basta não fazer nada errado. Mas existem dois argumentos fortes contra esta forma de pensar. Primeiro, podem ser criadas mentiras, que divulgadas pela rede, tem um potencial infinitamente maior de se espalhar que as “penas ao vento que não podem ser recolhidas”, na conhecida metáfora. Além disso, quem julga o que é errado? Estamos sujeitos ao controle moral de quem está interessado apenas em fofocas e maledicências. Os olhos eletrônicos estão em toda parte. Faça algo fora do padrão e você será enquadrado. Ao contrário do livro de George Orwell, o grande irmão não é uma pessoa só. Ele está diluído em uma humanidade que quer controlar cada um dos indivíduos que a compõe. Como mostra o caso da professora, e muitos outros semelhantes, é a mulher que continua sendo a mais vigiada das criaturas.

Esse fenômeno, porém, tem um outro lado. Qualquer um que não se importe em ter a sua privacidade violada, pode tranformar-se em uma celebridade com seus cinco minutos de fama. E alimentar os olhares gulosos dos voyeristas de plantão. Nesta sociedade confusa, tornar-se “celebridade” pode ter um valor maior que proteger a intimidade. Esta é a lição ensinada por programas do tipo reality show.

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Papo de consultório

setembro 7, 2009

(por calcinha de cristal)

Estava esperando ser atendida pelo médico e, pra passar o tempo, comecei a bater papo com as outras mulheres. Claro, como a gente não se conhecia, conversamos futilidades, como pintura de cabelo. Falamos sobre homens que pintam o cabelo. Quase morri de rir quando alguém disse o que acha pior. Ela observou que tem homens que aproveitam o resto da tinta da mulher, e fica o casal com o cabelo de mesma cor. Se este é o seu caso, desculpe, mas considere isso um toque: é ridículo e se você acha que ninguém vai notar, está enganado(a). Verdade que depois descobri que quem falou isso é policial e, portanto, observar faz parte da profissão.

É difícil homem pintar o cabelo e ficar natural. Homem, em geral, ou pinta de preto, e aí fica preto demais, ou pinta de uma cor meio castanha, meio ruiva, que tem gente que chama “acaju”. Todo mundo nota.

Embora eu pinte meu cabelo, às vezes fico preocupada com as substâncias tóxicas da tinta. Mas a vontade de variar o visual e, claro, esconder uns (poucos!) cabelos brancos, prevalece. Uma vez eu li que o cabelo branco, na verdade é um cabelo transparente, porque a melanina, que dá cor ao cabelo, fica no interior do fio, coberto por uma camada translúcida. Poeticamente, quem escreveu isso tentava convencer que é bonito o cabelo branco, por ser um cabelo mais iluminado, brilhante. Eu até acho bonito, mas é difícil não associar o cabelo branco à velhice. E a gente quer fugir dela.

Mas às vezes cansa lutar contra a natureza e dá vontade de desistir. Mesmo porque a gente sabe que, no final, ela sempre vence.

Quando voltei da consulta, fui pesquisar sobre o tema “pintura dos cabelos”, para saber se realmente a tinta faz mal. Acabei encontrando uns sites superlegais que simulam a cor do cabelo, como a gente ficaria com o cabelo de algumas celebridades, como ficaria o peito com uma plástica, como ficaríamos mais magras ou mais gordas. Tem de tudo. É só fazer o upload da foto. Vou listar os links abaixo. Se não estiver dando certo, experimente atualizar o navegador, ou mesmo usar um outro navegador.

É divertido! Ah, se eu descobri que tinta pra cabelo faz mal? Tá cheio de textos que afirmam isso. Tem um que até diz que pintar o cabelo aumenta a quantidade de fios brancos, que ironia… Mas a gente não pode acreditar em tudo que lê na internet!

links:

http://www.colortry.com (experimente novas cores de cabelo)

http://facecombine.com/(misture seu rosto com o de celebridades)

http://reshapr.com/ (faça uma cirurgia plástica virtual)

http://www.modiface.com/ (site da empresa que bola todos estes softwares, onde tem ainda outros, até de simulador de aparelho ortodôntico)

colortry

Mães nunca desistem

setembro 1, 2009

rosana pandim

(por calcinha de oncinha)

Há muito tempo evitava assistir ao filme “A Troca”. Mas, neste fim de semana, decidi vê-lo. O sumiço de um filho é algo que assombra as mães. A dúvida se ele está vivo ou não. Que sofrimentos estará passando. Os dias que se somam e viram meses e viram anos. A notícia que nunca vem. A dor que nunca passa. Porque mãe acorda no meio da noite pensando se o filho está com frio. E vai cobri-lo. Mas ele não está lá. A cama vazia. Arrumada.

Walter Collins

Walter Collins

O filho de Christine Collins desapareceu. Porém ainda havia mais o que tirarem dela. É uma história tão absurda que, acho, nenhum escritor teria imaginado. Só uma coisa não é surreal. A mãe que não desiste. Como as mães da Praça de Maio.

Foi uma coincidência ver este filme, logo após ter escrito sobre outras mães em busca de seus filhos. Às vezes não são filhos biológicos. Mas o sentimento de proteção maternal é o mesmo. Como o amor de Sunita Krishnan pelas meninas que ela resgatou da exploração sexual. Como o amor de Dhoroty Stang por pessoas que não têm quem as socorra. Falei sobre estas mães, estas verdadeiras mães. Porque, claro, existem as mães que não são mães de verdade. Mas estas são exceção.

Christine Collins foi vítima não só do desaparecimento do filho, mas de uma polícia e um sistema corrupto, numa escala difícil de acreditar até para nós brasileiros. Mas uma mãe de verdade não desiste nunca. Christine Collins não desistiu. Susana Trimarco não desistiu. Superaram forças violentamente contrárias aos seu inconformismo.

As fotografias de crianças brasileiras desaparecidas podem ser vistas no site do Ministério da Justiça ou em páginas de ONGs, como a Missing Kids no Brasil. Segundo o próprio Ministério da Justiça não existem estatísticas oficiais sobre crianças desaparecidas anualmente no Brasil. Mas são milhares. Talvez quarenta mil. Casos como o da pequena Rosana Pandin, desaparecida aos onze anos, desde 1973. A secretaria de segurança, na época, em plena ditadura, considerou o caso um “sequestro consentido”, embora não houvesse provas ou indícios, e só investigou um pouco mais pela pressão da imprensa. Sua foto ainda é exibida por uma mãe, D. Guilhermina, e irmãs que sofrem. Mas que ainda têm esperanças, passados trinta e seis anos. Mas seria injustiça não falar do pai de Rosana, seu Angelo. Ele comprou um fusca, onde colocava a mulher e as outras filhas dentro, e saía sem rumo em busca de notícias da filha sumida. Gastou um dinheiro que não tinha nesta procura, até em outros países da América do Sul. Morreu, aos sessenta anos, ainda esperando reencontrar Rosana.

Mulheres supercorajosas

agosto 26, 2009

(por calcinha de oncinha)

Dizem que corajoso é aquele que age com o coração. Assim, listamos três mulheres supercorajosas, uma indiana, uma argentina e uma americana. Todas foram ameaçadas de morte por covardes. Infelizmente, uma delas foi assassinada.

Sunitha Krishnan

Sunitha Krishnan

A indiana Sunita Krishnan está à frente da ONG Prajwala, instituição dedicada a salvar meninas da exploração sexual. Ela age destemidamente, denunciando exploradores. Após muita insistência, acabou convencendo as autoridades a agir. Alguns criminosos foram presos. Foi ameaçada de morte várias vezes.

Susana Trimarco

Susana Trimarco

A filha da argentina Susana Trimarco foi raptada em 2002 por uma rede internacional de tráfico de mulheres. Desde então, enfrentando ameaças de morte, ela vem denunciando estes crimes, enquanto procura a filha. A polícia inicialmente ignorou-a. Mas, após uma campanha internacional, a polícia começou a agir. Em 2006 fundou uma instituição dedicada a prevenir, procurar vítimas e buscar a punição dos criminosos, que pode ser acessada em Fundacion Maria de los Angeles .

Dhoroty Stang

Dhoroty Stang

A americana Dhoroty Stang lutava pela dignidade dos povos da floresta amazônica. Foi assassinada a tiros em 2005, após muitas ameaças de morte.

Mulheres superpoderosas

agosto 24, 2009

(Por calcinha de oncinha)

cristina-fernandezA revista Forbes publicou a lista das 100 mulheres mais poderosas do mundo. O critério para a classificação compõe-se de dois quesitos: visibilidade (menção na mídia) e tamanho da organização ou do país que elas lideram. Naturalmente, a maioria das mulheres é americana. Mas também têm algumas indianas e até uma argentina, a Presidenta Cristina Fernandéz Kirchner, que está em 11º lugar. A lista não pode ser levada tão a sério, pois dela consta a mulher de Barack Obama, Michelle Obama, que, embora provavelmente lidere sua família e seu marido, não está à frente de nenhuma organização ou país.michelle-obama

Na lista não se encontra nenhuma brasileira.

Coco Chanel

agosto 10, 2009

(por calcinha exocet)

Cartaz do filme "Coco before Chanel"

De repente veio uma onda de filmes falando sobre a vida de Coco Chanel. A mais recente produção tem no papel principal a atriz Audrey Tautou, conhecida do grande público pela participação no filme Código da Vinci e, do pequeno público da grande arte, pela excelente interpretação da personagem Amelie Poulin. A vida de Coco Chanel realmente merece um, ou melhor, vários filmes.

À afirmação de que havia precedido o movimento feminista, ela replicara: “À instrução da mulher consiste apenas em duas lições – nunca sair de casa sem meias e nunca sair sem chapéu”. À de que teria sido pioneira na arte do design de moda, ela retrucara: “A moda não é uma arte, é um negócio”. À de que sua independência a tinha lançado num mundo antes dominado pelos homens, ela sentenciara: “Uma mulher que não é amada não é ninguém. A solidão pode ajudar um homem a se encontrar, mas destrói uma mulher”. À de que foi uma autêntica self-made woman já no início do século, ela rebatia com histórias fantasiosas e rebuscadas sobre uma infância endinheirada e um refinado pai negociante de cavalos. E, no entanto, Gabrielle Chanel aboliu os vestidos armados em favor de um jeito de vestir prático e confortável; criou roupas e acessórios que hoje se encontram expostos em museus; sempre preferiu o trabalho à conveniência de um casamento e montou, sozinha, um império equivalente a 4,5 bilhões de dólares em valores de 1990. Mademoiselle, como ficou conhecida ao longo de 88 anos de uma agitada existência, era uma personagem dinâmica e empreendedora, sujeita a tempestades de cólera e a alfinetadas venenosas, quando se sentia ameaçada. O paradoxo marcou sua vida: era uma dama de ferro sonhadora, revolucionária com estilo clássico, ousada apesar de alérgica às grandes extravagâncias. (ler mais em Superinteressante)

lu1228-cocoOrfã de mãe, foi abandonada pelo pai em um orfanato religioso, sendo educada por freiras. Mas seu passado de pobreza nunca foi comentado por Mademoiselle. Ela até pagava uma mesada para seus irmãos nunca aparecerem.

Em sua vida atribulada, enquanto erguia seu império, casou-se diversas vezes. Inclusive com um oficial nazista, pelo que foi exilada.

Sem dúvida, uma mulher incomum, mas que mostra que o talento para os negócios não é, de forma nenhuma, característica somente masculina.

Coco Chanel morreu aos 88 anos, ainda trabalhando.

Faísca pra todo lado

agosto 5, 2009

(por calcinha exocet)

No meio do almoço, ela perguntou solenemente ao amigo, advogado, com seu gostoso sotaque nordestino: “Se uma mulher matar o marido durante a TPM, ela fica isenta de pena?”. O amigo afirmou que não conhecia nenhuma lei que absolvesse a mulher que assassinasse o marido nesta circunstância. Mas, passado o impacto, alguém perguntou se ela, recém-casada, já estava pensando em matar o marido. Ela disse que não, mas que às vezes ficava muito irritada com a calma dele. Claro que todo mundo riu da contradição.briga

Brincadeiras à parte, este problema, que acometeria 75% das mulheres, tem reflexos na vida pessoal e profissional das mulheres, dependendo da intensidade com que os sintomas se apresentam.

Os estudos mostram que se trata de um problema real, que não depende da vontade da mulher. Então, se não confere uma licença para matar, temos que considerar que é uma questão de solidariedade dar um desconto para as mulheres que estão sob os efeitos da TPM. Segundo uma pesquisa publicada em 2008, o público masculino se considera mais compreensivo do que as mulheres acham, pois 62,1% disseram que conseguem entendê-las nesse período.

Seria natural imaginar que entre as mulheres a solidariedade fosse maior. O estudo não abordou esta questão. Mas lembro-me  que um amigo perguntou para uma amiga em comum, lésbica, se o relacionamento entre mulheres não teria a vantagem da maior compreensão para os sintomas da TPM. A resposta sincera dela foi que não havia qualquer solidariedade e que, se coincidisse de ambas estarem com TPM, “saía faísca para todo lado”.

Mas, há alguns anos, descobriu-se que uma variação no nível de testosterona nos homens causa sintomas semelhantes à TPM. Este fenômeno foi batizado de Síndrome de Homem Irritável (SHI). Essa Síndrome atinge homens de todas as idades, sem distinção de raça. A queda súbita do hormônio no homem não é periódica como na mulher e, sim, relativa a situações vivenciadas, ao estresse, à morte de um ente querido, a brigas, ao divórcio, a doenças e a preocupações etc.

Isso serve para mostrar que homens e mulheres são humanos e estão sujeitos igualmente a variações do humor por causas alheias às suas vontades. Mas, em casos mais graves, há tratamentos à disposição que amenizam o sofrimento. Além disso, é claro, vida saudável, prática de esportes e alimentação correta ajudam muito.



Depois dos 40 (autorretrato)

julho 29, 2009

Deixo meus pincéis de lado. Limpo as mãos com o paninho de prato surrupiado da cozinha. Afasto-me dois passos. Tento reconhecer-me naquela mulher. Seus seios estavam diferentes de vinte anos atrás, e não são circulares como os da Maja Desnuda. Mas isso os fazia mais feios? Imagino a mulher retratada com próteses de silicone. Percebo que isso acabaria com sua beleza. E se não fica bem na tela, não serve para mim. Mas podia imaginar algumas modificações naquelas mamas, então penso numa plástica, sem prótese.  Simulo mentalmente o efeito da cirurgia na pintura. Também não me agrada. Convenço-me de que gosto daquele quadro do jeitinho  que eu o pintara. E se a mulher retratada se parecia comigo, eu estava satisfeita com meu corpo de quarenta e seis anos.

Maja Desnuda - Goya

Maja Desnuda - Goya

Mesmo assim, continuo a olhar com cuidado o autorretrato. Vejo que havia exagerado na cor vermelha na região genital. Rio de imaginar que havia representado uma mulher naqueles dias.  Mas logo penso, e por que não? Por que não seria de bom-gosto? Bom-tom? Boa estética? Não, eu sou rebelde, minha Maja Desnuda quase cinquentona continuaria menstruada. Então me dou conta do poder do inconsciente. Eu mesma ainda sangrava mensalmente. Mas até quando? E de repente, a menstruação, essa minha inimiga desde os treze anos, torna-se uma amiga querida da qual não quero me separar. Peço-lhe que continue me visitando  todo mês. Novamente rio de mim mesma. Toda amiga tem vontade própria, partirá quando quiser, quando for a hora.

Judith and the head of holofernes - 1901 - Gustav Klimt

Judith and the head of holofernes - 1901 - Gustav Klimt

Lira dos Cinquentanos - 1992 - Juares Machado

Lira dos Cinquentanos - 1992 - Juarez Machado

Aproximo-me da tela e, recolocando meus óculos, examino o rosto daquela mulher. Vejo um rosto jovem. Terei sido generosa demais comigo mesma? Terei aplicado um botóx de tinta acrílica na fronte quase lisa, em volta dos olhos, dos lábios? Vou ao espelho inventariar minhas rugas. Confirmo a minha generosidade. Estava longe de  ser um lifting, mas parecia mais nova na pintura que na realidade.  Não tomara consciência de todos os riscos que surgiram na minha face nos últimos cinco anos. Penso nas mulheres que exageram no uso do pancake, e ficam com aquela pele de massa corrida. Retorno ao quadro e penso se seria possível retratar-me com maior fidelidade. A técnica que utilizo, embora quase realista, não permite reproduzir os finos traços de rugas, pois as pinceladas são grossas demais para detalhes. Mas não quero trair minha cronologia. Percebo, afinal, que o problema não são as rugas, ou a falta delas, mas a expressão inconsistente. Com pequenas modificações, quase imperceptíveis, nos lábios e nos olhos, chego ao efeito que quero. Não são mais olhos e boca de uma menina, são olhos dignos, como os de Judith no quadro de Gustav Klimt, ou como os belíssimos olhos verdes da mulher que vi numa obra de Juarez Machado. Em ambas as pinturas, vê-se a idade das mulheres apenas pela expressão amadurecida. Orgulho-me ao conseguir um resultado semelhante.

Venus ao Espelho - 1615 - Peter Paul Rubens

Venus ao Espelho - 1615 - Peter Paul Rubens

Propped - 1992 - Jenny Saville

Propped - 1992 - Jenny Saville

Checo, por fim, a barriga e os quadris, e verifico que eles têm um certo volume. Lembro-me das pinturas renascentistas e barrocas, com mulheres em formas redondas, gordinhas mesmo. Sinto saudades de um tempo que não vivi, em que uma gordurinha não era pecado. A barriguinha  e os quadris da mulher no quadro estão presentes, mas sem exagero. Também gosto desse conjunto.  Me vem à mente a torturante imagem criada por Jenny Saville, uma mulher muito obesa, equilibrando-se num ridículo banquinho, praticamente empalada.  Fico feliz porque a mulher que pintei parece confortável.

Afasto-me mais uma vez do cavalete. Há só mais um detalhe a checar. A iluminação sobre a mulher. Ela está sob um sol alto, um sol de duas horas da tarde. Sim, é exatamente o que eu quero. Ainda faltam algumas horas para o crepúsculo, e aquela mulher ainda terá muito o que fazer antes que anoiteça.

Leia também Depois dos Trinta .

Depois dos 30

julho 24, 2009
Mulheres correndo na praia, de Picasso

Mulheres correndo na praia, de Picasso

Como é bom ter mais de 30! As de 20 nem imaginam!

Depois dos 30, somos bem mais livres, menos manipuláveis, menos confusas, mais tranquilas. Depois dos 30, assumimos nossos estilos de roupa, cabelo, tipo físico. Damos adeus aos modismos e assumimos nossa própria identidade. Claro!, não podemos generalizar, pois existem mulheres e mulheres de mais de 30. Mas conheço várias assim, com esse perfil.

Depois dos 30, comemos pizza, sorvete, chocolates sem culpa alguma. Nos cuidamos, sim: academia, dermatologista, massagens, salão de beleza. Mas tudo sem excessos, com uma boa dose de equilíbrio. Somos vaidosas na medida certa, sem querer ser uma tábua, ou melão, melancia e essas frutas todas aí.

Passeio, de Chagal

Passeio, de Chagal

Usamos esmalte vermelho e damos o foda-se! ao fato de os homens odiarem esmalte vermelho. Podemos ter cabelo curto, comprido, vermelho, roxo, usar salto alto, odiar salto alto e não ter problemas com isso, viver de all star. Depois dos 30, já viajamos, já conhecemos um pedaço do mundo, falamos idiomas, temos cultura, sabemos discutir os mais variados assuntos.

Nos masturbamos sem culpa alguma, compramos lingeries, vamos aos sex shops, nos entregamos de verdade quando encontramos o parceiro certo, podemos fazer sexo por sexo ou ser românticas incorrigíveis, esperando o amor certo para a noite certa de sexo fenomenal. Conhecemos nossos corpos, gostamos de vê-los, de tocá-los. Os respeitamos. E sabemos: antes sozinha do que mal acompanhada.

Assistimos a filmes água com açúcar, daqueles bem bonitinhos, sem o menor medo de sermos criticadas, pois já vimos a maior parte dos intelectuais, que também amamos. Tomamos cerveja, vinho, pinga, ou nada, e danem-se os preconceitos. Somos vegetarianas, carnívoras, os dois ao mesmo tempo. Se não somos casadas, temos nosso canto, nossa vida. Dizemos, em alto e bom som: Não!, eu não quero ter filhos ou Sim!, ainda quero ter uns cinco ou Sim, ainda quero me casar ou Não, escolhi estar só.

Abrazo amoroso, Frida Kahlo

Abrazo amoroso, Frida Kahlo

Para mim, estar na casa dos 30 é ser livre. Livre de nós mesmas, de nossos traumas e neuras, ou, pelo menos, de alguns deles. O tempo nos ensina, e muito, é um perfeito professor, o melhor de todos. Uma amiga, na casa dos 50, diz que tudo fica ainda melhor aos 40, depois aos 50.

Deve ser a sensação de ter vivido, a certeza de que passamos boa parte do tempo correndo atrás de ilusões e de futilidades, tratando e atendendo nosso ego, nos enganando, não sendo nós mesmas e que, enfim, encontramos o verdadeiro sentido da vida: paz, estar perto dos que amamos e nos amam, estar bem consigo mesmo, entender que o melhor da vida é ser simples, é viver livremente. As opiniões? Ao menos a mim elas não importam nenhum pouco. Opiniões e preconceitos são diferentes de críticas construtivas. Essas, sim, são acatadas.

Cena de Thelma e Louise

Cena de Thelma e Louise

Nos 30, foram-se os desejos de fama, sucesso, de ser reconhecida, pois já sabemos que tudo isso é pura ilusão. Queremos somente paz, um amor gostoso para curtir, estar próximas dos que amamos, ter um bicho de estimação ou um jardim, escrever um blog, publicar um livro em uma pequena editora, sonhar, viajar, fazer algo por amor. Aos 30, começamos a trilhar o caminho do equilíbrio.

Quando esperamos o amor chegar…

julho 22, 2009
Cartaz de Nunca te vi, sempre te amei

Cartaz de Nunca te vi, sempre te amei

Por Calcinha Romântica

Um dia, reclamei de minhas tentativas amorosas frustradas para um grande amigo. E ele calmamente me disse para eu começar a fazer tudo, todos os dias, pensando no amor verdadeiro que estava por vir. Sim, um homem me disse isso, um desses raros que não traem a mulher, que somente fazem amor e não sexo por sexo, um desses românticos lindos… incomuns, é bem verdade. Que pena! Conheço três deles. Sim, três. Nenhum está ao meu lado, infelizmente, mas fico feliz, e muito feliz, por saber que existem e que estão, neste momento, fazendo alguém sorrir.

Sim, espero um amor, não desses enlouquecidos, apaixonados, que nos fazem perder a cabeça. Passou meu tempo. Procuro, hoje, uma companhia sincera, calma, companheira, cúmplice, independente, inteligente, sensível… A lista é grande! Seria esse o problema: nossas exigências. Cheguei a um ponto de não conseguir imaginar meu corpo sendo tocado por alguém que não amo e que não me ame. Sou ainda das antigas. Preciso de romance, de carinho, de afinidades… Sexo por sexo? Minhas mãos me amam muito bem e tenho uma ótima imaginação.

Cena de As pontes de Madison

Cena de As pontes de Madison

Às vezes, fico pensando como será esse encontro. Onde será? Quem será? Somos surpreendidos de formas tão diversas, porque a vida é isso mesmo: surpresas. Em minha última história, apostei todas as fichas. Todas! Fui destruída como em uma guerra desigual. Estou convalescendo. Mesmo assim, meu coração quer tanto, tanto alguém, que o pego espiando por debaixo dos esparadrapos e faixas e pomadas e remédios em uma tentativa de ver esse tal de amor.

Mas a vida já me ensinou que procurar não adianta. O amor vem assim, de surpresa, quando menos esperamos, das formas mais inusitadas. Sim, a vida brinca com a gente, somos parte de um jogo do qual nem sempre temos controle. Tenho amigas bonitas, inteligentes, solteiras, casadas, jovens, nem tão jovens mais… e todas, sem exceção, sofrem por amor, querem amar. Se não têm alguém, buscam.

Cena de O paciente inglês

Cena de O paciente inglês

Quanto a mim, sinto uma certeza absoluta de que existe alguém. E eu espero, como aconselhou meu amigo querido. Vivo bem só, muito bem, aqui no meu canto, com minhas cores, dores, músicas, vinho, escritas, trabalho, amigos adorados. Assim, me recupero, porque, quando o amor chegar, quero mesmo estar pronta, livre, independente. Sou uma daquelas que se jogam, que se despencam, que se arremessam… Já tive todos os ossos quebrados. Mas lá vou eu de novo, porque o amor vale e muito.