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Florbela Espanca: “… e não haver gestos novos nem palavras novas”.

novembro 23, 2009

(por calcinha exocet)

Quem já ouviu Raimundo Fagner cantando um poema de Florbela, Fanatismo?

“Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida

Meus olhos andam cegos de te ver

Não és sequer a razão do meu viver

Pois que tu és já toda a minha vida

Não vejo nada assim enlouquecida

Passo no mundo, meu amor, a ler

O misterioso livro do seu ser

A mesma história tantas vezes lida

Tudo no mundo é frágil, tudo passa

Quando me dizem isto, toda a graça

Duma boca divina fala em mim

E, olhos postos em ti, digo de rastros:

‘Ah! Podem voar mundos, morrer astros,

Que tu és como um Deus, princípio e fim!…”

Essa poetisa portuguesa, nasceu em 8 de dezembro de 1894, em Vila Viçosa (Alentejo). Casou-se três vezes e morreu jovem, aos 36 anos. Seu primeiro casamento foi aos 19 anos, com Alberto Moutinho, um colega de estudos. Devido às dificuldades financeiras, ela e seu marido saem de Redondo, em 1915, e vão morar com o pai, João Maria Espanca, em Évora. Alberto Moutinho tem um caso com a empregada da casa, Henriqueta de Almeida, e, então, divorcia-se de Florbela.

Em 1916, volta a Redondo e reúne uma seleção de sua produção de 1915, inaugura o projeto Trocando Olhares, coletânea de 88 poemas e 3 contos. “O caderno que deu origem ao projeto encontra-se na Biblioteca Nacional de Lisboa, contendo uma profusão de poemas, rabiscos e anotações que seriam mais tarde ponto de partida para duas antologias, onde os poemas já devidamente esclarecidos e emendados comporão o Livro de Mágoas e o Livro de Soror Saudade.”  Fonte

Casa-se novamente, em 1921, com um oficial de artilharia, António Guimarães. Depois de sofrer dois abortos espontâneos, seu casamento termina pela segunda vez e sua família deixa de falar com ela. Essa nova situação a abala muito e sua saúde física e psicológica começa a dar sinais de fragilidade. Em 1925, em Matosinhos, casa-se pela terceira vez com o médico Mário Laje. Em 1927, perde o irmão, Apeles Espanca, num grave acidente de avião. A morte do irmão, mais um drama em sua vida, a afeta psicologicamente.

Em 2 de dezembro de 1930, Florbela encerra seu Diário do Último Ano com a seguinte frase: “… e não haver gestos novos nem palavras novas”. Às duas horas do dia 8 de dezembro de 1930 , no dia de seu aniversário, Florbela Espanca suicida-se, em Matosinhos, ingerindo dois frascos de Veronal. Postumamente, foram publicadas as obras Charneca em Flor (1930), Cartas de Florbela Espanca (1930), Juvenília (1930), As Marcas do Destino (1931, contos), Cartas de Florbela Espanca (1949) e Diário Do Último Ano Seguido De um Poema Sem Título (1981).

Florbela Espanca teve um frio acolhimento em vida, a crítica da época não entendeu sua poesia. Esta caracteriza-se pela recorrência dos temas do sofrimento, da solidão, do desencanto, somados a uma imensa ternura e a um desejo de felicidade e plenitude. Sua linguagem é  intensamente passional, centrada nas suas próprias frustrações e anseios. Seus versos estão também carregados de erotismo: “Olhos a arder em êxtase de amor,/ Boca a saber a sol, a fruto, a mel/ Sou a charneca rude a abrir em flor!”. Florbela tornou-se uma grande personalidade feminina nas primeiras décadas da literatura portuguesa do século XX.

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