Posts Tagged ‘solidão’

Depois que entrar no Trem Noturno não há volta!

novembro 30, 2011

Trem noturno para Lisboa, romance de Pascoal Mercier, é um livro instigante, que levanta questões sobre a vida, a solidão e a morte. Na verdade, Pascoal Mercier é o pseudônimo de Peter Bieri, professor de filosofia em Berlim.

A história é de Raimund Gregorius, filólogo clássico, que após um encontro inusitado com uma mulher na ponte Kirchenfeld, em Berna, resolve mudar sua vida. Uma mulher misteriosa, falante da língua portuguesa, cuja sonoridade da língua o encanta, faz com que ele sinta uma urgência de vida. Um número de telefone anotado em sua testa pela misteriosa mulher torna-se o ponto de partida para que busque outra vida.

Existem alguns acontecimentos do cotidiano que nos avisam intimamente o momento da mudança? Como saber que um encontro por acaso com alguém nos diz que chegou a hora? O desejo da mudança já o habitava há tempos, bastou uma fagulha para que ele sentisse a firmeza do momento.

A mudança é lenta, não há como romper com a solidez de um estilo de vida de uma hora para outra. As dificuldades que o personagem encontra são compreensíveis, pois passou quase uma vida inteira sendo e fazendo as mesmas coisas, sem desvio nenhum. Raimund era como as línguas clássicas, antiquado, pesado, morto.

Assustado com a súbita consciência do tempo que se esvai, deixa para trás sua rotina organizada e pega o trem noturno para Lisboa. A atração pela sonoridade da língua o faz tentar aprendê-la e comprar um livro do português Amadeu de Prado, que caiu em suas mãos por acaso. Prado é uma espécie de guia para ele, pois tece reflexões sobre infinitas experiências da vida como solidão, amizade, lealdade, amor e morte.

É possivel ao se conhecer outra pessoa, compreender outra vida? O que isto pode acrescentar para o conhecimento de nós mesmos?  Os escritos de Prado – tão maravilhosos por sinal – fazem com que Raimond enxergue a si mesmo e enfrente seus maiores medos. Intrigado com a vida de Prado,  investiga os motivos que levaram o admirável médico e poeta a lutar contra a ditadura de Salazar. Essa jornada em busca de conhecer a vida de outro homem, leva-o a se encontrar consigo lamentavelmente tarde.

O número do telefone que guardou durante todo o tempo – que me intrigou durante toda a leitura – tornou-se, simbolicamente, o número de um bilhete de passagem sem volta.

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Florbela Espanca: “… e não haver gestos novos nem palavras novas”.

novembro 23, 2009

(por calcinha exocet)

Quem já ouviu Raimundo Fagner cantando um poema de Florbela, Fanatismo?

“Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida

Meus olhos andam cegos de te ver

Não és sequer a razão do meu viver

Pois que tu és já toda a minha vida

Não vejo nada assim enlouquecida

Passo no mundo, meu amor, a ler

O misterioso livro do seu ser

A mesma história tantas vezes lida

Tudo no mundo é frágil, tudo passa

Quando me dizem isto, toda a graça

Duma boca divina fala em mim

E, olhos postos em ti, digo de rastros:

‘Ah! Podem voar mundos, morrer astros,

Que tu és como um Deus, princípio e fim!…”

Essa poetisa portuguesa, nasceu em 8 de dezembro de 1894, em Vila Viçosa (Alentejo). Casou-se três vezes e morreu jovem, aos 36 anos. Seu primeiro casamento foi aos 19 anos, com Alberto Moutinho, um colega de estudos. Devido às dificuldades financeiras, ela e seu marido saem de Redondo, em 1915, e vão morar com o pai, João Maria Espanca, em Évora. Alberto Moutinho tem um caso com a empregada da casa, Henriqueta de Almeida, e, então, divorcia-se de Florbela.

Em 1916, volta a Redondo e reúne uma seleção de sua produção de 1915, inaugura o projeto Trocando Olhares, coletânea de 88 poemas e 3 contos. “O caderno que deu origem ao projeto encontra-se na Biblioteca Nacional de Lisboa, contendo uma profusão de poemas, rabiscos e anotações que seriam mais tarde ponto de partida para duas antologias, onde os poemas já devidamente esclarecidos e emendados comporão o Livro de Mágoas e o Livro de Soror Saudade.”  Fonte

Casa-se novamente, em 1921, com um oficial de artilharia, António Guimarães. Depois de sofrer dois abortos espontâneos, seu casamento termina pela segunda vez e sua família deixa de falar com ela. Essa nova situação a abala muito e sua saúde física e psicológica começa a dar sinais de fragilidade. Em 1925, em Matosinhos, casa-se pela terceira vez com o médico Mário Laje. Em 1927, perde o irmão, Apeles Espanca, num grave acidente de avião. A morte do irmão, mais um drama em sua vida, a afeta psicologicamente.

Em 2 de dezembro de 1930, Florbela encerra seu Diário do Último Ano com a seguinte frase: “… e não haver gestos novos nem palavras novas”. Às duas horas do dia 8 de dezembro de 1930 , no dia de seu aniversário, Florbela Espanca suicida-se, em Matosinhos, ingerindo dois frascos de Veronal. Postumamente, foram publicadas as obras Charneca em Flor (1930), Cartas de Florbela Espanca (1930), Juvenília (1930), As Marcas do Destino (1931, contos), Cartas de Florbela Espanca (1949) e Diário Do Último Ano Seguido De um Poema Sem Título (1981).

Florbela Espanca teve um frio acolhimento em vida, a crítica da época não entendeu sua poesia. Esta caracteriza-se pela recorrência dos temas do sofrimento, da solidão, do desencanto, somados a uma imensa ternura e a um desejo de felicidade e plenitude. Sua linguagem é  intensamente passional, centrada nas suas próprias frustrações e anseios. Seus versos estão também carregados de erotismo: “Olhos a arder em êxtase de amor,/ Boca a saber a sol, a fruto, a mel/ Sou a charneca rude a abrir em flor!”. Florbela tornou-se uma grande personalidade feminina nas primeiras décadas da literatura portuguesa do século XX.

Solidão

agosto 2, 2009

Por Calcinha Romântica

Bjork, All is full of love

Bjork, All is full of love (Vhttp://www.youtube.com/watch?v=EjAoBKagWQA)

Meus pensamentos de carne

(Vulgares andarilhos desnudos,

Inquietos na boca da mente,

Essa infame faminta de corpos)

Percorrem meus dedos

De pele solidária.

Caminhantes dedos

Desérticos

A matarem a sede minha

Em mim mesma,

Poço nu.

Sexo Casual

julho 13, 2009

(por Calcinha Romântica)

Se meu corpo falasse, se meus dedos falassem, se minha língua se contivesse! É noite. Estou só. Tomo uma taça de vinho. Ouço feminina voz rouca em espanhol vindo… de mim, de não sei onde, do aparelho de som. Minha mente derruba grades, paredes… avança mares, ultrapassa espaços. Mãos são línguas agora, o que mais podem ser? Nada me impede de me dar a quem eu quiser neste exato momento. Meus dedos percorrem curvas e montes. Sou minha e de todos na solidão da sala. Sinto meu gosto em meus dedos impregnados de mim mesma, me possuo. Grito incontido sem nomes, com todos os nomes, com um nome final… Mas estou só… e me deleito com todas as possibilidades.