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De batom vermelho e sem medo

janeiro 19, 2010

(por calcinha de cristal)

Assisti no GNT a um filme chamado Lipstick. É baseado no livro de Geralyn Lucas, “Why I Wore Lipstick To My Mastectomy“, que conta a vida da autora, no período em que teve câncer nos seios com apenas 27 anos.

Várias coisas me chamaram atenção no filme. A primeira delas, que justifica obviamente o título do livro, é que a protagonista passava batom vermelho para sentir coragem. Usou durante a mastectomia e depois, superado o câncer, durante o parto.

Achei legal isso, porque o batom vermelho andou meio estigmatizado, tinha gente (ainda tem) que achava (ainda acha) vulgar ou muito erotizado e aí muitas mulheres acabaram optando pelos tons mais claros, pra não arriscar. Eu adoro batom vermelho. Acho  uma afirmação da feminilidade. Uso sem medo. Daí porque entendo perfeitamente que a autora use o batom para se sentir corajosa.

a foto é da atriz do filme, não da escritora

Ela também usa o batom para ter coragem de posar para fotos em que mostrará, numa revista, o seio mastectomizado. Na cirurgia foi preciso remover o mamilo. A frase junto com a foto é muito bonita: “eu coloquei a tatuagem no fim da cicatriz porque ela termina onde meu coração (a minha coragem) começa.”

Um dos momentos mais interessantes do filme vem dessa questão da ausência do mamilo. Ela se pergunta por que está tão incomodada. Se é por ela mesma ou se é pelos outros, principalmente o marido. Neste momento me lembro dos milhões de mulheres que colocam implantes de silicone para se sentirem bem. Elas deveriam fazer a mesma pergunta. Afinal, a quem se quer agradar?

O câncer de mama é um fantasma que nos assombra muito, por ser um dos mais freqüentes, mas também por ser um câncer que ameaça nossa aparência de fêmea. É um tipo de câncer que atinge principalmente as mulheres, embora possa afetar uma pequena parte dos homens (mas isso não tem nada a ver com ser gay, como sugeriu o idiota do Roberto Requião).

Parece, como muitos outros tipos de câncer, haver um fator genético. No ano passado repercutiu o caso da atriz  Christina Applegate – estrela da série de TV “Samantha Who?”, exibida no Brasil pelo canal por assinatura Sony –  que passou por uma mastectomia dupla depois de ter sido diagnosticada com um câncer em um dos seios. Sua mãe havia lutado contra o câncer e sofrido muito e ela mesma possui o gene relacionado, provavelmente, à doença. Por isso decidiu fazer uma mastectomia preventiva do seio que ainda não tinha apresentado sinais de câncer.

A mensagem geral do filme “Lipstick”, e possivelmente do livro, é de que a vida continua apesar das cicatrizes. Uma mensagem bonita, do tipo auto-ajuda, e que realmente foi válida no caso de Geralyn Lucas. Mas isso me lembra um outro livro, de uma pessoa que também sofreu e foi curado do câncer. Neste, o autor afirma que manter-se “positivo” pode ser extremamente penoso quando se tem a legítima vontade de chorar e ter pena de si mesmo.

A atitude do tipo “não tenho mais os bicos dos seios, e no lugar ficou uma enorme cicatriz, mas foda-se!” tem que ser conquistada, para chegar a isso precisa percorrer um caminho, apontado pelos vários anjos de que fala Geralyn. E não são psicólogos (podem ser também), mas gente comum, como a drag queen ou o tatuador que ela encontrou durante seu sofrimento.

A propósito da tatuagem, também foi legal ver que esta tem sido usada para compensar a remoção do mamilo. A recriação de um “mamilo”, por meio de tatuagem, ou outra técnica, tem sido rejeitada.

Mas procurando por imagens para ilustrar este post deparei-me com a dura realidade. Muitas cirurgias deixam cicatrizes bastante deformantes, nada comparáveis com a fotografia da atriz na revista.